segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

De juízo suspenso

Provavelmente há bastantes leitores de jornais e revistas que desatendem ou são incapazes de perceber a orientação ideológica do que lhes é dado a ler. Podem até estranhar que haja alguma espécie de «ideologia» misturada nas notícias ou nos comentários, nas opiniões, nas imagens ou nas críticas que lhes fornecem com uma dada forma. Para eles, a informação ou uma fotografia são o que são tal qual, valem o que valem… e ponto final. Não conseguem avançar até mais longe.
Caso idêntico acontece quando se pede ao leitor a sua interpretação de um texto literário, digamos um poema ou um conto. Torna-se problemático decidir o que o texto exprime essencialmente, seja tristeza ou galhardia, atitude de renúncia ou de heroísmo, ou se será mesmo tão inócuo como um boletim meteorológico do ano passado.
Algo de semelhante parece suceder, num plano diverso, com a dificuldade que se detecta quando se requer uma avaliação ponderada da índole de uma certa pessoa. Os testemunhos rarefazem-se, tornam-se inconsistentes, como se uma avaliação pessoal de alguém conhecido fosse algo de imprevisto ou mesmo de impensável. Prefere-se a atitude de quem, conhecendo, desconhece e se descompromete.
Julgar torna-se ingente, é penoso, e assumir uma verdadeira opinião pessoal tornou-se incomodativo. Chega a ser obsceno.
Vive-se de juízo suspenso.
Assim se expande a «ideologia» da «desideologiação», que o mesmo é dizer, acredita-se cada vez mais num mítico «fim da ideologia». Mas impõe-se a visão clara (a clarividência) neste ponto. Os arautos do mito pretendem esmagar as ideologias existentes de modo a obter por fim uma única ideologia - a deles - pretensamente não ideológica. Mas sabem que a diversidade é atributo inseparável da condição humana e que as «maneiras de ver» possíveis também são infinitamente multiformes tanto quanto a condição humana. Logo, têm um comportamento que não é só mistificador. Acima de tudo, é de modelo totalitário, terrorista. Acusam os «outros» de «ideológicos» para chamarem a si toda a Ideologia do mundo e, depois de se apoderarem dela, proclamarem o seu desaparecimento.



O mercado, onde triunfa o mais forte e fraqueja o mais fraco, passou a ter defensores acérrimos depois de se instalar como ideologia. Chega a ser declarado requisito básico do sistema democrático. Sem mercado aberto não há liberdade – liberdade para os mais fortes – é o que se pretende inculcar.
Porém, a democracia surgiu precisamente para defender os mais fracos, a maioria, do poder imposto pela força maior, isto é, para defesa dos muitos contra os poucos, da maioria contra a minoria privilegiada. Não há democracia no mercado, há negação, e por sinal acontece o mesmo dentro dos campos de futebol, espaços de competição acérrima, tão populares, tão queridos, onde vence a força maior comprada e imposta a peso de dinheiro.

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