domingo, 27 de janeiro de 2008

desPALAVRAdamente

O que valem as palavras que hoje se dizem e ouvem, que se escrevem e lêem? Tretas e letras em total descrédito. Estamos no tempo da des-palavra, a destruição da palavra.
Entrámos pela sofística a correr para os recursos argumentativos. A sinonímia apurou-se e ampliou-se, foi mesmo preciso recorrer a vocábulos estranhos para distinguir mais e obter novos efeitos discursivos. Os políticos aprenderam a falar para esconder o pensamento, não já para o exprimirem. E entrou-se na deriva.
Em cada discurso houve que detectar o que nele se exprimia realmente para o separar daquilo que meramente prometia e logo o expurgar. As expressões foram-se distanciado do expressado até que deixou de reinar uma correspondência válida entre o que se enunciava e o teor mesmo da enunciação. Declarou-se por fim a falência das palavras.
Mas a falência prosseguiu e agravou-se. As palavras puderam não exprimir já um conteúdo qualquer servido dentro de uma forma mais ou menos rica de indeterminação, eufemismos e metonímias. Avultou a dimensão simbólica dos discursos em prejuízo do discursado.
De facto, as palavras passavam a poder significar algo na inversa do que diziam. Paz, guerra, liberdade, democracia, segurança, desenvolvimento, terrorismo, patriotismo e tantas outras, depois de mastigadas por bocas infrenes, empanaram o seu brilho e tornaram-se plásticas ou, em caso de conveniência, incorpóreas. Começou a ser custoso perceber onde cada discurso queria chegar.
E a deriva avançou. A treta tornou-se negadora, espectacular. As palavras-força (esventradas, esvaziadas, mortas) serviram depois para exprimir o contrário directo do significado que antes se lhes atribuía. Ninguém mais pôde afirmar que falar de paz era falar de paz, falar de democracia, democracia, de liberdade, liberdade, pois logo se erguiam vozes a questionar, negando: mas que pazes, democracias, liberdades?
Perdeu-se então a inteligência do que as palavras exprimiam, da própria transcendência da expressão verbal autêntica, para se implantar a confusão mental e, nela, alastrar o terrorismo no quotidiano. O dialogante não pôde mais pugnar por uma ideia sem enfrentar a contradita, isto é, sem entrar nos labirintos das discussões enredadas e estéreis. Abundou a capacidade para contraditar. Do televisor onde se faz a política se retira, formatado pelos fabricantes de opinião, o que cada um deve pensar e dizer em resposta (anuladora) ao que outros dizem.
Assim acabou por se consumar a destruição da palavra e assim entrámos na era da incomunicação. Falta-nos agora sentir que não podemos viver sem a restaurarmos plenamente. Todavia, quantos de nós sentem que é a palavra dignificada do homem que nos torna humanos? Tire-se a palavra ao homem e vejamos: o que fica no seu lugar?
Destruí-la provoca também a destruição do próprio ser humano individual no colectivo. Restaurar a palavra ser-lhe-á possível na medida em que puder restaurar-se a si próprio a nível individual e social.

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