quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Livros «lêem» leitor

Domingo de manhã, ao sentarmo-nos à mesa de um café em centro comercial, a amiga C. M. anunciou:
- Peçam para vocês, vou ali num instante à livraria ver se já tem o novo livro de J. R. S., que lá vi agora anunciado num cartaz. Parece que já chegou.
Voltou sem o livro e com alguma frustração. Perguntei-lhe por que ansiava pelo último romance do jornalista televisivo. Porque, respondeu C. M., no anterior um trecho a tocara, mas, acrescentou em minha intenção, sentia o atractivo da obra de um autor mediático que andava nas bocas do mundo e que em breve seria tema de conversas.
Filei o assunto. Não é normalmente a melhor literatura aquela que o marketing mete pelos olhos dos leitores arrebanhados. Prolifera cada vez mais uma literatura de consumo, descartável (a tal que consome a Literatura, isto para lembrar a prevenção que venho fazendo desde 1994) porque o público lê o que aos berros as fábricas de best-sellers lhe dão a ler, isto é, sem ânimo para arriscar um passo em direcção a uma possível descoberta, a uma qualquer revelação esplêndida achada nas entulheiras.
De facto, o que fazemos tem reais consequências. Arriscando pouco, eu poderia vaticinar que a nova obra do romancista mediático apareceria cuidadosamente moldada na anterior em vista do sucesso que alcançou (devido à dimensão mediática do autor) e que ele desejaria agora ampliar. Sintonizando o gosto predominante do público, escreveria para o satisfazer, pelo que a amiga C. M., correndo para a «novidade», estaria a orientar (eu disse a «obrigar») o autor a moldar ainda mais os ingredientes do seu próximo romance à «receita» do sucesso. A consequência disso, atenção, tornava o candidato a escritor num mero fabricante de produtos legíveis de venda rápida no mercado.
C. M. tinha um ar de petiza a ouvir, paciente e benévola, o sentencioso sermão do avô caturra. Eu avancei.
Ressaltava então um aspecto digno de ser tido em boa conta. A leitora entusiasta que ela era estaria a transformar-se enquanto ia consumindo livros que mais e mais se assemelhariam uns aos outros (e portanto lhe «leriam» as preferências) – ao corresponderem sem surpresa ao que ela mostrava querer ler – em vez de querer ser ela a «leitora», condição esta afirmada pela capacidade que demonstre de se aventurar em descobertas próprias à margem dos ditames da indústria cultural. Por este caminho, em breve aquela amiga estará colocada no eixo do carrossel veloz que põe a girar em torno de si um círculo de figuras-sempre-as-mesmas e que a conservará passiva, adormecida, incapaz de sentir a hipnotização…
E então o celebrado prazer de ler? O valor das motivações para a leitura? Sim, de acordo, algum resultado isso terá, mas vejamos, o que importa é que a leitura alargue os horizontes mentais e não que os circunscreva, que tonifique as meninges e não que as adormeça. Acima de tudo é preciso que o leitor, sabendo relacionar factos e ideias, saiba ler o quê, como e para quê.

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