segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

O paradigma e o ser

Somos amigos muito chegados desde os anos ’70. Naquele tempo conheci-o a ler com gosto um livro que lhe narrava casos burlescos. Lembro um, o do finório que comia em restaurantes sem ter dinheiro: reclamava um direito universal à alimentação. Outro, o do fulano que desistia do emprego em multinacional onde ganhava uma pipa de massa mas o escravizava sem horários, sem fins-de-semana nem férias em troca do que tivera anteriormente onde nem metade ganhava.
Em meados dos anos ’80, o vírus que pairava e se estranhava, entranhou-se. A regra solidária de «a união faz a força» era banida pelo individualismo cegueta do «cada um por si». Mas ainda abundavam os convites para um convívio, um jantar, uma reunião cordial. E foi durante uma refeição, entre amigos, que alguém contou o caso. Na véspera, à mesa do jantar, em sua casa, dissera à família:
- Hoje resolvi não envolver a empresa num negócio que me daria uns mil e quinhentos contos a ganhar de golpe. A operação não era ilegal de todo, creio que estaria na fronteira da legalidade. Mas não quis entrar em problemas, arriscar.
- Ora, foste tolo! – cortou o meu filho.
- Achas?!
- Era bom dinheiro…
- E para que o querias? – perguntei-lhe.
- Ora! Comprava uma mota!
A fisionomia daquele pai, naquela noite, manteve-se um tanto sorumbática. Talvez adivinhasse a mudança de paradigma que estava a operar-se.



Certas pessoas que conheço levam-me a supor que se imaginam a si próprias, de alguma maneira, dotadas de uma consciência tão «autonomizada» que se sentem aptas a servir interesses exógenos sem incorrer em modificação dessa consciência. Tendem a julgar que os interesses concretos que defendem na prática são aleatórios, como se essas pessoas fossem meros computadores, máquinas capazes de funcionar com um qualquer software instalado. Terei de vê-las como seres corrompidos?
No computador substituímos um programa de trabalho e a máquina continua igual. Porém, uma pessoa não é uma máquina, é um ser - e neste ponto se engendra o problema.
Uma pessoa que faz um trabalho acaba também feita pelo que faz, não a máquina. Se não é impossível, pelo menos não será fácil que alguém (digamos um bom democrata, um bom sindicalista, um bom católico) passe a exercer funções que lhe negam os ideais sem os abjurar e danar o próprio ser que era. Tão-pouco o trabalhador que se veja promovido e a ganhar dez vezes mais na sua empresa conseguirá manter-se facilmente sem abjurar o seu passado, lá onde terá as raízes e a matriz. São sérias as consequências do dinheiro bem-mal ganho.

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