terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Percorri, corri

Percorri todas as secções da redacção, afora a desportiva, e finalmente encalhei, por maioria de razões, na de cultura. Nasceu na minha mão e foi crescendo a pouco e pouco, alimentada por pessoal empenhamento (depois transformou-se em páginas e páginas com cinema, música e outros brilharetes massificantes). Na verdade, tive na profissão um estatuto algo particularizado, especial. Fiz amiúde, no dia-a-dia, o que intentava por iniciativa própria. Neste ponto, os responsáveis da casa confiavam em mim, na minha isenção e seriedade geral. Também, à evidência, na minha competência e brio profissionais. Então porque não ascendi, de redactor, a cargos de chefia?
Houve pelo menos uma ocasião em que a hipótese foi posta em cima da mesa em reunião da instância superior, mas não vingou.. Soube pelo L. O. que «estive quase». Registei.
Desde então, mais de uma vez vi acender-se nas mentes brilhantes a ideia de uma promoção que me retirasse da condição de soldado raso no jornalismo, mas a primeira vez ficou a valer como remédio salvador dos outros vindouros. E foi assim…
Sem nada ter pedido, foi-me proposto chefiar uns companheiros bem conhecidos. Como sempre gostei de situações claras, respondi, de caso pensado, que agradecia a confiança e que aceitaria a proposta com uma condição simples e democrática: eu não escolhera aqueles companheiros para o lugar que ocupavam, mas eles, porque iriam obedecer-me, tinham o direito de ser consultados para, caso me «elegessem», aceitar a promoção. Só nesta base eu iria ter autoridade sobre eles.
Ao saltar da boca, o argumento pareceu-me cristalino, razoável e prudente. Engano! Era «dar» a promoção não a quem a dava de facto mas aos meus futuros subordinados. Era «democracia directa», logo, uau!, fraquíssima democracia... Era, em última análise, e para maior escândalo e ofensa, lançar uma crítica arrasadora, uma crítica mortal a todos os superiores hierárquicos existentes, que nenhumas «bases» haviam aprovado!
Por este prisma se fizeram então visíveis umas tantas contradições que iam transformando a redacção no moinho dos melhores. Triturava uns e centrifugava outros, perpetuando a qualidade das cadeias do poder.


A jovem estagiária entrara para a redacção quando já se falava (em demasia, para proveito dos sempre-os-mesmos) da falência a prazo da Segurança Social e eu já ia em direcção à porta da bem merecida reforma. Ela, o «sangue novo» que entrava na profissão, fez questão de me abordar para, carrancuda, avisar:
- Eu não vou pagar as reformas dos outros!
Sublime. A menina esquecia-se de que descontara um único mês, ia a meio do segundo, e que estava perante quem pagara impostos ao longo dos anos todos da vida. Não era bonita, nem simpática, nem inteligente, antes bruta como um calhau.
Voou dali sem demora para as terras de nenhures que merecia.

Sem comentários: