domingo, 17 de fevereiro de 2008

Clamor e escândalo

A estranheza com que olho o mundo tal como se nos mostra no primeiro decénio do século XXI torna a justificar-se. Certa noite vi um filme de ficção no canal Fox, perdendo o início, portanto o título, mas o filme foi repetido e então, dominando a repulsa, atingi o final. A revolta casa-se aqui com o escândalo mais clamoroso.
O filme, pela voz dos seus intérpretes, proclama que «é preciso matar para comer». Não em tom de comédia, antes em drama sério. Não as espécies venatórias fora dos períodos de caça aberta, sim a espécie humana não protegida. Atónito, vejo militares nos States dos tempos da expansão para Oeste em cenas atrozes de canibalismo. O horror total declara-se ao espectador quando lhe é mostrado que comer carne humana alimenta com poderes mágicos o canibal: ferimentos de tiros, de golpes de espada ou punhal, etc., que ele tenha recebido no corpo ficam curados num instante; e além disso, a besta-fera ganha poderes para-normais! Um major e um tenente, em luta, morrem por fim em armadilha para ursos, mas a danação contamina o general recém-chegado ao forte, que é atraído pelo cheiro da panela e come o guisado de carne humana… Horror!
Sem dúvida, privado de qualquer distanciamento perante o ignóbil, o filme instiga comportamentos desumanos, repelentes e ostensivamente criminosos até à pura insânia em qualquer país. A ficha técnica indica Eslováquia, México, Londres e, claro, a Twenthy Century e a Fox, rede de tv por cabo muito conhecida nos EE.UU. em ligação com sectores republicanos de direita. Ora o filme passa no canal umas quantas vezes e não se ouve um grito de angustiada aflição. Tudo dorme em almofadas de leis escarnecidas, enquanto se propagandeia «mata e come» no planeta globalizado! Até a Igreja, atentíssima na detecção da vida no embrião uterino, fica muda. Tanto silêncio ensurdece!


Manhã recente: o jornal aterrou-me. Um escritor mexicano, de nome obscuro, matara e esquartejara a namorada e apanharam-no em flagrante a devorá-la. Exibia uma foto a cores do canibal, ferido na cabeça e de cara ensanguentada porque resistira à polícia. O filme da Fox, visto há meses, ressurge na memória arrepiada. Para onde caminha esta «civilização» que civilizou povos (para os colonizar) ditos canibais, levando à frente a cruz e o credo?!
Não tarda, chega a notícia de jardineiro ucraniano que mata e come o patrão, na cintura de Lisboa…
É a verdade terrível, instalou-se e expande-se a loucura da barbárie. Curioso, parece que todos olham para o lado. Mas há quem, de olhar fixo, fique no horror, a pensar. O consumismo transforma o consumidor numa máquina com função única de devorar muito e depressa para se sentir pleno. A massificação, forma acabada da tirania, coisifica-o, dissolvendo-lhe a individualidade no caldo anónimo. O princípio da barbárie deve estar por aí, na aniquilação do indivíduo real a pretexto de lhe afirmar um individualismo de fachada.

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