sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Contemplações

Um crítico literário estabelece na prática a abrangência de géneros e de estilísticas da sua intervenção. Será, por assim dizer, essa a opção assumida na matriz do seu gosto, pois dificilmente poderia ser «universal», aberto a todo e qualquer livro. No caso de R. T., aprecia amiúde ficções, poemas, narrativas. Redige umas notas de leitura sobre livros para crianças por fraternal companheirismo com os respectivos autores, não por pretender possuir qualquer competência específica. Mas supõe-se que esta competência cintile com especial brilho em fulanos que, como J. A. G., exibem formação académica apropriada e um longo tirocínio pontuado por imensos textos na imprensa periódica e alguns livros de estudos e ensaios inseridos nessa área. Pois, apesar de tudo, aconteceu a surpresa. E foi assim…
Há anos, ofereci ao J. A. G. um livro de histórias «para crianças» acabado de sair e respondi-lhe na ocasião às diversas perguntas que formulou. Indagou-me de certas características do livrinho, o sentido e o alcance literários do texto, etc., e eu tive muito gosto em explicar-lhe as minhas motivações, persuadido, então, de que sintonizávamos ambos idênticos valores éticos e estéticos (depois o fulano passou a dar vivas ao mercado e às suas leis). Foi, porém, com espanto genuíno que encontrei na apreciação por ele elaborada a seguir tudo o que eu lhe dissera e… quase mais nada. Releio agora essa apreciação «crítica» num volume já a amarelecer. Como este sorriso.



Os excessos nefastos que se acumulam neste tempo fazem-me evocar amiúde, por contraste, o exemplo admirável de homens, grandes cidadãos, que conheci e recordo com vivo apreço. Ruy Luís Gomes, Aquilino Ribeiro, Ferreira de Castro, Agostinho da Silva, Óscar Lopes, Armando de Castro, António Borges Coelho… Ou Carlos Paredes, Fernando Lopes Graça… Cidadãos verticais, com uma enorme dimensão humana, cultural e social, sempre modestos e afáveis a cada momento, simples e sem jactância, confundíveis com qualquer figura do povo. Ainda mais admiráveis por isso mesmo.
É dever nosso segui-los de olhos fitos, recusando arrogâncias, exibicionismos, alaridos de feira, vaidades de três ao cento. Neste diapasão se torna audível a mais fidedigna e veemente categoria da pessoa real, a sua verdadeira substância humana.
Nunca a menosprezar os outros alguém conseguiu fazer-se respeitar. Talvez nem mesmo fazer-se temer (atitude expansiva com algum sinal terrorista).


No que escrevo vai o melhor de mim, leia-me quem queira! Nestes termos faço minha uma frase célebre de André Gide (a duvidar do interesse que alguém, um leitor, poderia ter em ir conhecê-lo pessoalmente). Mas sempre venho procurando que a distância entre o que exprimo e a pessoa real que sou se revele diminuta ou, se possível, inexistente. Acompanho Rilke (1875-1926): «Eu não vivo em sonhos mas sim na contemplação de uma realidade que talvez seja o futuro.»

2 comentários:

Anónimo disse...

E se uma das leituras possíveis da citação de J.A.G.(ou J.P.M.?)fosse a vontade de tornar-se voz do Autor na apreciação da obra?
Ars coloca ,ao lado de Gide e de Rilke, vultos como Agostinho da Silva, Ferreira de Castro e Oscar Lopes. Magnífico!

Anónimo disse...

Respondo ao Anónimo das 2:16com duas respostas:
A possibilidade proposta pela interrogativa não colhe salvo na medida em que o autor da apreciação se negue enquanto tal;
Coloquei lado a lado Gide e Rilke, Ferreira de Castro, Agostinho e Oscar Lopes na categoria em foco, a da modéstia.
E, caro Anónimo, volte sempre! -- Ars