terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Culturas: de duas, uma!


As mudanças ocorrem a uma velocidade crescente e tão vertiginosa que dificulta a correcta avaliação das suas consequências. E provoca uma espécie de geral anestesia.
Em datas recentes (digamos nos anos ’80 do século passado), ainda coexistiam na sociedade portuguesa duas manifestações perfeitamente reconhecíveis: as da cultura popular e as da cultura erudita. No sector dos livros, aquelas eram marcadas pelas leituras de novelas policiais, de ficção científica, banda desenhada e outras de pura diversão; havia o cinema comercial, o teatro de revista, o artesanato, exibições de folclore, etc. As manifestações de cultura «erudita» dispensavam então este adjectivo, pois se autonomizavam e distinguiam nitidamente (apesar da existência de uma linha divisória sempre fluida e até sujeita à contradição). Os jornais diários que se prezavam tinham páginas ou suplementos culturais/literários e muitos semanários regionais seguiam-lhes o exemplo (onde hoje temos discos, filmes e algum best-seller de autor-marca).
Em poucos anos, esta realidade em equilíbrio alterou-se. Deu mesmo um trambolhão tanto mais espantoso quanto na verdade é inadvertido! A transformação tornou-se violenta e radical pela entrada em cena da indústria dos bens culturais. Graças à democratização do país, o marketing entrou em pleno no mercado, massificou os consumos dos bens e operou a popularização dos espectáculos. As leituras de policiais, ficções científicas, bandas desenhadas, o folclore e filmes comerciais, canções ligeiras em voga, etc., perderam a mácula anterior e passou a vigorar o paradigma do mercado que impõe como bom e até óptimo o que mais se vende e consome. Chegámos assim ao tempo de toda a nossa literatura ser ou parecer light na medida em que for a que mais esteja em evidência. A cena foi invadida por manifestações exclusivas de cultura popular, só elas contam porque só elas são visíveis, enquanto as da cultura «erudita» se refugiaram nas academias, onde aliás se cobrem de sombras que também sobram para alguns pontos disseminados de cultura viva em resistência.

Dos tempos de Salazar retém-se estórias ainda hoje de proveito e exemplo. Eis uma, a lembrar que o país profundo afinal mudou pouco.
Um próximo do ditador questionou-o, admirado porque o presidente de Conselho nunca tinha, aparentemente, qualquer dificuldade em arranjar quem convidar para integrar as suas equipas governativas. Claro e sucinto, Salazar respondeu:
- É a inveja! Todos têm inveja uns dos outros!
A inveja continua a reinar por cá. O invejoso trata de ignorar a concorrência que não consegue descartar para que ninguém daquele lado lhe faça sombra. A herança salazarenta persiste nas mentalidades portuguesinhas. Amesquinha tudo. Promove a perpetuação da mediocridade nacional. O favorzinho, a cunha... (Ilustração: desenho de Emerenciano)

2 comentários:

vidaprovada disse...

Caro amigo:
Concordo em pleno com o que apontas nas últimas linhas desta crónica. Atrevo-me a acrescentar que a inveja não só perpetua a mediocridade nacional como a acentua a um tal ponto que a mentalidade da população portuguesa, em geral, corre o risco de barrar qualquer tentativa de mudança, activando um processo de regressão cultural, económica e social desastroso para todos (sim, para todos, porque ninguém lucra com este género de mentalidade, ainda que exista quem esteja convencido do contrário!).
Abraços
Isabel Domingues

A. M. disse...

Amiga:
A tua concordância transforma-se em apoio, que agradeço. É muito bom para mim ter-te por aqui em companhia. Serás sempre bem-vinda!
Ars