sábado, 16 de fevereiro de 2008

Destruição global

Chamem-lhe o que quiserem, globalização, desestabilização geral, capitalismo selvagem, imperialismo, porque as consequências reais que expande são estas.
Destruiu-nos o cinema. Os filmes que passam pelo mundo sujeitam-se às categorias catalogadas pelas normas. Generalizou-se o arsenal de recursos técnicos, multiplicaram-se os efeitos especiais e rarearam até à indigência as realizações artísticas ao ponto de o cinema se difundir, degradado, como espectáculo banal.
Destruiu-nos a televisão. Os canais, de sinal aberto ou de cabo, nivelaram-se todos por baixo, cada vez mais baixo, até ao aviltamento em assumida e prazenteira mediocridade. Nem os temáticos negam o populismo nivelado por baixo, a dormência dos estereótipos e das rotinas.
Destruiu-nos os jornais, invadindo-os com publicidade, primeiro para equilibrar falhas da receita das vendas e depois, pouco a pouco, forçando-os a preencher com «conteúdos» o espaço da informação que os anúncios deixavam vazio. Desmiolados, varridos de cultura, sensacionalistas e colonizados pela Visão Única, os jornais assemelharam-se entre si, perderam vendas, e então apareceram e abundaram os gratuitos estraga-papel.
Destruiu-nos o teatro, que paralisou nos palcos autistas à espera de Godot e pouco se atreve a pegar nos clássicos gregos, em Shakespeare, Chekov, Pirandello, Ibsen, Brecht, Lorca, entretendo-se com umas tretas enfadonhas que homens sem qualidades poderão aplaudir. E a dramaturgia nacional?
Destruiu-nos a literatura, impondo a industrialização dos bens culturais no mercado e vergando este aos ditames dos marketings mais fortes. Os livros tornaram-se vulgares mercadorias em circulação que têm de dar lucros rápidos e, portanto, serem de consumo acéfalo. Nada de novo resta para dizer. Os leitores atravessam cada monte de prosa paginada e saem no fim sem recolher patavina do percurso de um ou dois quilómetros de letras alinhadas. Meia dúzia de «autores-marca» que produzam obras «modelares» conforme interessa ao mercado chegam para abastecer a máquina industrial.
Destruiu-nos o prazer natural do jogo, prática lúdica. Confundiu-o com competição acérrima que ninguém quer perder nem que seja por uns ridículos feijões – os golos (caríssimos golos!) Esmagou a variedade dos jogos tradicionais praticáveis até a centrar no futebol e transformou este jogo em espectáculo de multidões e prática especializada de uns poucos profissionais comprados a milhões.
Destruiu-nos a capacidade de pensar e julgar, de ter e proclamar opinião própria, pela insistência em modelos mentais simplistas e repetitivos que conformaram os cérebros massificados pelo rolo compressor de todas as variedades reais em circulação. Tanta opressão e tirania instalou o pior fundamentalismo, o que não se reconhece a si próprio. «Democrata» é quem pensa como nós e ponto final.

4 comentários:

Manel disse...

Mas não destruiram a capacidade de julgar e de pensar de Arsénio Mota.
No final deste ano este blog merece uma ediçâo em livro.
Blog 2008, o diário de um blogger.
Abraços
Manel

Anónimo disse...

O amigo Manel é e será sempre uma chama viva onde quer que viva. Sempre atento, fraterno, comunicativo, caloroso, formidável! É reconfortante ter um amigo assim! Dou-me por feliz por o conhecer, amigo Manel! Continue a ser como é para que o mundo e a vida continem a valer a pena!
Quanto à ideia do livro com o conteúdo do blogue no fim do ano... teria esse livro acaso tantos leitores quantos os deste blogue? Saem mil livros novos, ou mais, por mês neste país pequeno e, dizem as más línguas, atrasado!!!
Abraço cordial,
Ars

Anónimo disse...

Meu caro:

Ainda há quem acredite que a globalização é uma importantíssima conquista desta era. Das duas uma: ou anda distraído, ou então é incapaz de ler, nas entrelinhas, o alcance perverso dos seus efeitos.
Haja, pois, quem consiga trazer um bocadinho de luz a essas cabeças!

Um abraço,

Isabel Domingues

A. M. disse...

Isabel, querida amiga:
Bem-hajas pelo apoio que dás às ideias que exponho! Na verdade, todos pensamos tão bem quanto podemos pensar, o que significa que ninguém estará sozinho quando pensa mal. Por outras palavras; há por aí quem nos queira e ajude a pensar pela sua cabeça, não pela nossa aberta e livre. E assim acho que há carência de informação e de debate geral franco para tentarmos corrigir-nos uns aos outros, aprendendo uns com os outros.
Lembro que um amigo deveras estimável, por sinal um outro Arsénio, me manifestou discordância quanto à «destruição global», mas por e-mail directo para mim. Acredita ele que a destruição ainda não é irreversível. Quem dera!
Vai um abraço cordial para vocês ambos! Muito obrigado,
Ars