domingo, 24 de fevereiro de 2008

Diapositivos


1. Estou a olhar para onde vi antes dois velhos prédios geminados. Foram demolidos há um ano, as pedras das suas paredes pagaram, ouvi dizer, as despesas da demolição. Pois já vejo o terreno coberto de arbustos e ervas, vegetação espessa que vai formando ali um verdadeiro matagal. As sementes soterradas pela construção dos prédios havia mais de cem anos puderam enfim despertar da letargia e estão agora a medrar à chuva e ao vento.
Imagino engenheiros e arquitectos a projectar o prédio que em breve se erguerá no terreno. E aquelas plantas desaparecerão outra vez, agora sob uma espessa placa de cimento, regressando à escuridão tumular da terra. Até um dia…
A resistência e a vitalidade indómita das sementes!


2. A um amigo de longe que me perguntara como ia eu na escrita, respondi-lhe comparando-me à pereira que vejo da minha varanda encostada à empena do prédio vizinho, na esquina do muro que veda um terreno. Teimosa árvore! Dá pêras rocha todos os anos, as pêras caem de maduras.
Um dia esse amigo visitou-me em casa e quis saber se tal pereira existia de verdade. Mostrei-lha, era árvore tão real quão metafórica, pois também eu me aplico a dar uns frutos que não sei quem cuida de colher, saborear.
Estou a recordar a peripécia e a contemplar a pobre teimosa, de novo carregada de frutos já cor-de-palha a alegrar o cone das folhas verdes. E torno a perguntar-me para quem escrevo eu, por que motivo as pereiras todas deste mundo têm de dar fruto.


3. Encontro dois namorados muito juvenis de pé, abraçados e a beijarem-se, no canto, à saída do meu prédio. Colados, nem consigo ver-lhes as caras, apenas a mão dele enfiada na cintura da rapariga, sobre a nádega. Vou, regresso tempo depois e encontro-os ainda envolvidos. Ardências de sangue na guelra! Mas algo me desperta. A vibração feminina pode diferir da masculina, eu sei, já fui rapaz. O meu espanto: terá o rapazinho sangue na guelra? Se tem mesmo, como aguenta tanto tempo? Será dos que vão pela rua com a namorada a misturar beijos e chiclet?


4. A glicínia prospera alegremente por cima do telhado estendendo ao sol um manto de verdura e cachos de cor violeta. Ao lado, um arame oblíquo liga o poste de iluminação pública ao telhado. E todos os anos vejo um primeiro rebento da glicínia ondulando na aragem, projectado do tufo, a apalpar o fio e nele se enrolar em busca de apoio e de maior altura. Depois, outros rebentos a espirrar seiva estendem-se naquela direcção, forma-se um corrimão de verdura que trepa até ao topo do poste, onde as hastes, adejando em torno como um polvo vivo agora tacteiam. Alguém tarda este ano a intervir ali, de tesoura na mão, contra o invasivo crescimento. Eu sei que lá em cima abunda bom vento e bom sol, mas também vejo o vazio envolvente do topo que a glicínia não vê. Acabo a sentir-me planta, é meu o tronco castanho feito de grossos braços retorcidos, torturados, que se afundam na terra. Penso que a glicínia já tem na sua seiva a memória daquele crescimento anual e que, sofrendo os cortes que lhe aplicam, saúda com alegria esta demora… (Ilustrações originais de Isa Ventura)

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