quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Encontrei-o esta manhã

Cruzei-me esta manhã com P. G., antigo colega de jornalismo. Esteve um passo à frente de mim na hierarquia do jornal (imagine-se porquê) e reformou-se com 40 anos de serviço naquela casa com a categoria de chefe de redacção longamente mantida - sem escrever um texto mas afiançando o comportamento ao serviço das administrações.
Notei que estava mais gordo, com excesso de peso, e ele, com a cabeça de prego na água que se lhe conhece, explicou.
Tinha ganho mais dois quilos de peso, apenas. Porquê? Deixara havia meses de usar gravata e o sangue subira-lhe pelas veias do pescoço e ficou assim, gordo só na cara. Mas agora corrigia o caso, tornando a usar gravata!
Aparecia na rua engravatado, é certo. Tinha 75 anos e a cara inchada, sem uma ruga - aquela cara que Altino do Tojal, no romance A Homenagem, achou que, se lhe escarrassem em cima, o dono aproveitaria para fazer a barba.
Grande novidade, porém, é esta: P. G. abria agora a boca, ó espanto, para se queixar dos administradores que ele, o fiel serventuário, servira ao longo de 40 anos. O jornal (papel sujo de tinta que sempre quisera de leitura leve e rápida, uns cinco minutos, e depois atirado ao lixo) já não lhe chegava a casa pela oferta da praxe. Falara com administrador amigo, e nada. Então ele, embora retirado, mas tendo prestado tão bons serviços, já não contava?!
Tem toda a razão S. T. (depois reitor de universidade): aquela cabeça é mesmo de prego. Nadando, cai para a fundura.
Outra boa gente considerou desde sempre negligenciável ou pior o P. G. Nunca faltavam motivos para isso. Em relação a mim desenvolveu uma rivalidade surda, talvez mesclada de inveja pessoal e de serviço contra a esquerda. Eu entrara para a redacção sendo já cronista regular do jornal e colaborador do «Suplemento Literário». Era ali um «literato», visto de revés. Tratei de ter cuidado, mas P. G. tinha «poder» e exerceu-o. Impediu-me, em Setembro de 1963, de ir à Figueira da Foz para um encontro cultural-literário que eu organizara com A. A. M. Depois, em Junho de 1964, fui levado pela Pide. Regressei passados três meses, P. G. ganhou balanço (o ambiente da ditadura ajudava). e, de parceria com um subdirector (o F. C., futuro administrador da RTP reciclado para a democracia), intrigando, arranjou modo de me ver porta fora em 1965. M. P. M., director e bom amigo, deixou-o agir, depois arrependeu-se…
A democratização permitiu-me voltar para o «meu» jornal. Um «preço» me foi imposto e, decorridos uns doze anos, um «preço» final também suportei aquando do acordo de reforma um pouco antecipada. O P. G. cantou vitória: tinha-me «expulso» da cidade e devolvido às berças...
Esta manhã esclareci-o: continuei a residir no meu lugar (felizmente arredado da estrumeira cada vez mais pestilenta da redacção), entregue ao meu primeiro amor, a literatura. O boato idiota posto a correr, de que trocara a cidade pela aldeia, fora ele próprio que o lançara! Ainda quereria mantê-lo?!

Sem comentários: