terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Escritores e intelectuais, hoje

Os escritores e os intelectuais em geral estão, neste tempo de paradigmas perdidos, mais que nunca, colocados no fio da navalha. Sobretudo os mediáticos, fazedores profissionais de opinião. Como atender ao papel que por definição lhes cabe desempenhar na sociedade europeia, hoje? Deixarem-se levar pela corrente pode ser cómodo e apetecível, mas pode também significar traição. Questão fulcral nos anos limiares do século XXI, leva-nos a retomar, com evidentíssimo proveito, alguns trechos de Claude Julien:
«Mas as escolhas daquele que escreve são ao mesmo tempo mais complexas e mais simples. E muito limitadas as opções que se lhe apresentam. Fugindo de negociatas e arrivismos, dedicando-se exclusivamente à sua arte, ele pode optar por se retirar para longe do ruído e do furor que tantas vezes nublam a vista, confundem o entendimento, paralisam a reflexão. Este mundo trepidante, ébrio da sua própria febrilidade, rapidamente condena semelhante retiro; isso de alguém desejar assim abstrair-se da agitação e das tormentas, dir-se-á, é trair a fraternal solidariedade dos homens, abandonar ao seu trágico destino as vítimas das crises que dilaceram o planeta, e talvez enterrá-las mais ainda no seu drama de fome, humilhação e sangue.»



No entanto, para Claude Julien, subsiste a eficácia do recolhimento no mundo dos nossos dias:
«O activismo nunca foi a melhor forma de as pessoas se inscreverem utilmente nos debates contemporâneos. O facto de uma pessoa se lançar para o meio da contenda em nada garante que fique na história, e que alguém se retire numa torre de marfim não é necessariamente uma traição. Muito pelo contrário, a tentação de o fazermos vai-se tornando cada vez mais forte, e cada vez mais justificada, à medida que aumenta a velocidade da máquina de trucidar gente.»
O Autor pondera a questão «o verdadeiro é o que vence?», mas aponta «um único outro modelo possível [nem o do contemplativo nem o do ambicioso]: o do intelectual que não pretende deixar um nome nas crónicas, que nem sequer tem a ilusão de pesar na evolução das ideias e dos acontecimentos. Mas que apesar de tudo luta, mesmo estando convencido de que irá perder o seu combate.» (Prefácio ao livro Le Devoir d’irrespect, Paris, 1979.)


Ando a lembrar-me da resposta que André Gide deu a quem lhe anunciava que um certo leitor pretendia conhecê-lo pessoalmente. «Para que quer ele conhecer-me»?, ripostou. «Já conhece o melhor de mim!»
Percebe-se porque o dito, muito difundido, deixou de circular neste tempo, e até se percebe por que motivo os livros de Gide entraram no desvão literário. Actualmente os escritores querem ser «vedetas mediáticas», actores em cena aberta. E os leitores, arrebanhados, aplaudem.

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