terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Fantástico a rodos

O cinema e a televisão, principalmente, andam a encher-se de uma onda impetuosa de histórias e de historietas com os fantásticos mais mirabolantes. Voltaram as feitiçarias, os bruxedos, as magias negras e brancas, tudo servido na bandeja do sobrenatural mais incrível. As realidades do mundo, tão dramáticas, já não prestam para alimentar a arte… industrializada. A inspiração tornou-se delirante.
Tanto retrocesso já provocou um brado angustioso: estamos a afundar-nos num limbo espesso de ignorâncias e crendices supersticiosas de outra Idade Média. A selvajaria extrema quer instalar-se na profusão espectacular dos efeitos especiais e das novas distracções alienadoras quando os recursos imaginativos da ficção parecem definitivamente cansados e gastos. Até se nos depara um filme que postula a antropofagia sem horror, antes propondo-a «compreensivelmente»!
A Idade Média merecerá a comparação com o nosso tempo? Raciocinemos. Não estaremos a ofendê-la?


As salas de exibição de filmes saíram da cidade e foram-se amontoando em pontos da periferia, de onde, aliás, também já estão a desaparecer. Na verdade, o cinema, espectáculo popular, após o movimento cineclubista dos anos ’50-’60 entrou em crescente declínio. A coincidir, por sinal, com a transformação do espectáculo «popular» em «wollywoodesco» em grande parte do mundo. O mesmo filme corre durante uma semana em sessenta salas nacionais, milhares no mundo inteiro. Passa por aí o rolo compressor. Mas é neste quadro de crise aberta, entre lamentações constantes de perdas de espectadores em debandada, que mais é notório o caso do festival que ano a ano põe em exibição na cidade e arredores perto de três centenas de filmes. Obras de ficção – o mais possível abundantes em vampiros, fantasmas, bruxarias e outros ingredientes do fantástico – são projectadas nos ecrãs em corrupio, durante catorze dias febris, de acordo com o muito badalado programa. E a multidão acode ansiosa e consome cinema em doses maciças, seis ou sete fitas à tarde e à noite, como se de repente aquele cinema fosse coisa preciosa em vias de extinção.
A entidade organizadora faz negócio e tão bem resultou desde logo que se instituiu em fundação, uma fundação para exibir filmes como se de tal houve necessidade, que discute e até exige dos políticos locais, que obtém espaços na comunicação social, patrocínios e apoios às dúzias, subvenções…
Conclusão a extrair?
Feixes de palha, pequenos e soltos, não atraem comedores fartos de erva seca. Mas uma receita salvadora foi encontrada: montões da mesma palha erguida a fazer vista, com bandeiras em volta a acenar e fanfarras a apitar, em cenário pimba-festivaleiro, consegue cheirar a pão quente e excitar as narinas de consumistas ávidos. Saberão eles que comem por junto a erva seca que a retalho os enjoa?

3 comentários:

Anónimo disse...

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Anónimo disse...

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A. M. disse...

Tenho que fazer o que não queria: moderar estes Comentários. Estão a ser invadidos por mensagens destas, oportunistas, por isso perigosas e que seria bom eliminar logo que aparecem, não vá alguém cair na armadilha como inocente. Mas fica, para já, esta prevenção.
Arsénio Mota