quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Génios

Apreciadores das criações artísticas deveras admiráveis defrontam-se ciclicamente com esta questão inesgotável: não será inerente ao génio uma qualquer psicopatologia? Até que ponto o ser genial resultará de uma «anormalidade»? Em termos corriqueiros: poderá alguém ser «genial» sendo «normal»?
A pergunta regressa a nós como boomerangue lançado e esquecido. Trazendo na cauda de meteoro questões como a de saber se a epilepsia será de todo uma doença. E empurrando-nos para venerandas galerias onde desfilam Da Vinci, Galileu, Mozart, Dostoievski, Shakespeare, Van Gogh, Picasso, Einstein, Pessoa…
Nem vale a pena questionar o que será «ser normal» ou arguir que é gente vulgar a que arruma os génios na galeria das mentes perturbadas, pelo catálogo das maleitas, apenas porque os vêem brilhar a incomensurável distância. É razoável supor que o ser genial aparece na biografia com uma marca tremenda, atingido por uma espécie de danação ou de um excesso. Isso, porém, nem sempre é bem interpretado. Na verdade, os génios ficam possuídos por uma pulsão que os leva a esventrar tudo o que lhes trave a realização. Estará nesse ponto dramático a medida da grandeza maior que cada um atinge?
Hermann Hesse, Nobel de Literatura em 1946, destacou no caso o impulso primordial. Escreveu: «O princípio da arte é o amor. O valor e alcance de toda a arte serão determinados sobretudo pela capacidade de amar do artista.» Afirmação talhante, mais nítida, definitivamente, com esta outra: «Génio é força de amor. É anseio de doação.»
Aqueles muitos que tentam compatibilizar a realização da sua obra com as suas necessidades vitais (isto é, habituais: amizades, família, sociedade, prazeres) parecem ficar envolvidos por uma mediania. A vibração que nos comunicam não sacode fortemente os arcanos mais esconsos da humanidade – da nossa própria humanidade.
Condição inapelável, a arte terá sempre que mergulhar na humanidade até o fundo mais fundo da sua aventura. Mas será a pessoa de cada artista que terá de responder com as suas opções na escolha do seu caminho: génio é anseio poderoso de dádiva, é força de amor. Não precisa que lhe digam que só alguns alcançam a categoria maior e também não cai na toleima – tão presente na nossa actualidade – de se apresentar como genial de aviário ou a caminho de o ser antes de ouvir um coro de vozes livres que lho imponham. Percebe o conjunto de talentos e de intuições, de perspicácias e de visões, de coragens e de entregas, que uma genialidade autêntica mobiliza para se organizar, avaliando isso pelo que lhe falta.
Os génios rareiam tão naturalmente quanto os cimos altaneiros avistados ao longe pelos habitantes dos vales e, para alguns, das meias alturas. Naqueles cimos divisa-se a redondez do horizonte, mas chega-se lá com esforço, em fila indiana, porque em socalcos serranos não entra a roda. E quem afirma que os habitantes dos vales e das meias alturas trepam poucas vezes aos cimos augustos porque, acomodatícios, perros das pernas, se limitam ao rés-do-chão? São eles que mais abundam e mais nos acompanham. De qualquer modo, todos os artistas são convocados pela partilha.

2 comentários:

Anónimo disse...

O tema, com esta abordagem, parece-me um bocado inovadora. Obriga-me a encarar de outro modo o advento dos génios. Vou pensar. Para já, parabéns, Arsénio!

A. M. disse...

Agradeço a opinião ao Anónimo(a?) das 14:28. Opine sempre - com divergência,concordância ou em estado de alma - porque para isso mesmo este espaço existe. Mas, por favor, assine nem que seja com nome inventado. O anonimato é contagiável como a gripe das aves! Até eu já caí nessa, aqui há dias, por descuido momentâneo...