sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Jornal de contrastes

Deixara de trabalhar em casa, isto é, de traduzir, cronicar e etc., pois voltara ao jornalismo, quando me deparei com J. V. M. à entrada de uma sessão cultural. Disparou-me:
- Então não publicas mais nada?
Entendi. Queria dizer livros, literatura.
- Por acaso tenho meia dúzia de títulos contratados. Se tudo correr bem, saem todos este ano, mas até lamentaria a circunstância. Acho-a indesejável…
- Isso é uma ameaça?! – ripostou ele com vivacidade.
- É o que tu quiseres! – contestei.
Conhecia J. V. M. desde que, ainda rapazinho, viera da ilha e, a morar em Espinho, brincava aos poemas. Esbugalhava os olhos, arregalava-os para a largura do céu, mas ainda não atestava o bojo como quem do fácil se alimenta porque nada leva a sério. Mas já gostava de se espipar em risos. Um dia procurou-me no jornal para me pedir que caucionasse ali a sua admissão junto do director. Queria ingressar no jornalismo.
Fiz por ele o melhor e ele foi aceite. Passadas semanas já me dava motivo de arrependimento. Gratidão? Companheirismo? Princípios? Nada disso, era o riso nele a rebentar.
Aguentou-se pouco tempo naquela casa, fez carreira como jornalista e escritor e, sobretudo, fez-se notar como quem gosta de comer e de rir – de tudo menos de si próprio. É notável a obra de destruição que deixa por onde passa e o curioso é que poucos se atrevem a indiciá-lo em público. O fulano não possui algum poder real, apenas se serve do que abunda por aí, gentinha pronta a envolvê-lo em impunidade porque gosta de comer e de rir com ele, vendo-o sacudir o bojo.


M. R. entrou a fazer parte da redacção em maré de viragem. Na década de ’80 o jornal ainda era tido como de «esquerda», pelo menos na opinião da direita, e na administração alguém terá presumido que não destoaria a inclusão de um socialista de esquerda (trotskista) na paleta do quadro redactorial. Mas a seguir ocorreu a viragem e M. R. foi posto a executar trabalhos que pouco ou nada requeriam das suas aptidões e competências, antes pretendiam rasurar a valia do jornalista.
Tratado como «incómodo», M. R. acabou por ser encarregado das «cartas ao director»: punha em prosa limpa a súmula das missivas dirigidas à direcção de modo a ficarem publicáveis. Tornou-se assim «as pupilas do Senhor Leitor», conforme se lia num dístico aposto na sua mesa.
Nós víamos a arbitrariedade, sorríamos à suave ironia do dístico e não podíamos fazer nada. E o rapaz era culto, já tinha nome literário: publicara um volume de poemas, traduzira do inglês o poema A Caça ao Snark de Lewis Carrol e prometia continuar. Sem mais paciência, M. R. deu-se pressa e foi trabalhar como tradutor para a União Europeia. Assim se perdeu mais um valor para o jornalismo.

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