sábado, 9 de fevereiro de 2008

Jornalistas de caneta

Os jornalistas do meu tempo começaram por manuscrever os seus textos, passaram para as máquinas dactilográficas, tiveram que começar a contar os espaços e as linhas dos escritos e adaptar-se depois aos teclados dos computadores. Nem todos conseguiram acompanhar esta viragem. Um deles foi NTN, que acabou a carreira ainda a garatujar no papel umas letras que nem ele próprio por vezes entendia quando já estava prestes a perder no jornal o derradeiro decifrador dos seus caligramas.
De certo modo, NTN seguiu, emudecido, para a reforma com o fim de uma era tecnológica. Comigo deixou a recordação de umas quantas disputas pirrónicas. Exemplo: questionava o género feminino em ministro, juiz, arquitecto e, oh céus, com estoicismo, admitia tão-só a secretária!; e desacreditava o homem que na força da vida lhe afirmasse ter sexo quase diário, até abria bem a boca para troçar da «mentira» sobretudo se o gabarola não tivesse filhos declarados. Em honra de um deles compôs um lembrado epigrama (de que guardo o original, por ele laboriosamente batido à máquina, em folha da redacção): «Trinta fodas bem espetadas / dá por mês o nosso homem; / mas é semente perdida / pois por garanhão que o tomem / nem em cu nem em barriga / se viu a levedação / de tão grande fo[r]nicação.»
Corrijo a omissão da letra na última palavra: um lapsus linguae?
Foi ele dos primeiros licenciados a ingressar na profissão, acho que no início dos anos ’60, em jornal do Porto. Padecia de insónias. De vez em quando punha-se a cochilar, hirto na sua cadeira ou de cotovelos sobre a mesa. Notando-o, o chefe de redacção, a vir de passagem das oficinas gráficas, comentou:
- Aqui temos o melhor comentário ao jornalismo português!
Reinava ainda o regime da mordaça, a censura prévia.
NTN era jornalista bastante respeitado. E, apesar de tudo, bom conversador. Um dia o diálogo levou-me, para encerrar a questão, a concluir:
– Bom, mas os idiomas nascem todos de erros.
– Oh, não! – discordou de imediato. – Há regras…
Pelo contexto, entendi que ele admitia a existência de uma espécie de idioma original, feito e perfeito, do qual todos os outros, posteriores, teriam derivado. Mas ambos conhecíamos o duplo significado de «errar»: praticar um erro ou seguir por um desvio, andar ao acaso. E ainda que possam ter existido uns poucos idiomas «originais» – não um único, em África, berço da humanidade –, é óbvio que a Torre de Babel que atordoa o mundo resultou de múltiplos desvios e erros em propagações e ramificações sucessivas. Estudou isto muito esclarecedoramente Merrit Ruhlen em A Origem da Linguagem.
Aspecto interessante relacionado: os especialistas detectam um paralelismo entre a evolução das ramificações linguísticas e a dos genes das etnias. Parece que uma evolução foi acompanhando a outra…

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