quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Leituras clandestinas

Tive um dia o gosto de surpreender I. M. D. com o livrinho A Arte de Não Crer em Nada e O Livro dos Três Impostores, dois textos prefaciados por Raoul Vaneigem, um talvez vindo do século XIII e o outro talvez do século XVI, livrinho publicado em 2002 na colecção de bolso da Europa-América.
Pois agora é a mesma amiga que me surpreende a mim, pondo-me nas mãos uma Memória de Jean Meslier, pároco de uma aldeia francesa da região de Champagne, título publicado por sinal também no ano de 2002 pela Antígona. O caso do autor e da obra impressionou-me vivamente por dois motivos paralelos.
A Meslier (1664-1729) é atribuída a autoria da frase «Enforcai o último rei com as tripas do último padre», fico agora a sabê-lo depois de a perceber em glosas várias no correr dos anos. E posso finalmente ler alguns trechos escolhidos do «Testamento» que deixou, documento espantoso que se espraia por três volumes manuscritos, mais de mil páginas ferventes de revolta contra o poder da religião e da aristocracia.
Espanta-me o caso deste padre cismático e sem dúvida de escassas leituras, pronto a arriscar a pele no início do século XVIII em defesa de camponeses maltratados pelo senhor local e a arriscar até a própria vida ao escrever, noite após noite, o mais violento ataque de que tem sido capaz o génio humano contra a tirania e as hipocrisias do clero. Concebia uma organização social sem Deus, igualitária, justa e fraterna, tão avançada na época que ficaria como outro motivo de espanto.
O homem escondeu o que ia escrevendo enquanto viveu, mas, após a sua morte, a obra entrou em circulação (pelo menos uma selecção dos trechos principais), fazendo estalar crescentes ondas de escândalos beatos, irritações e elogios.
O leitor que tenha passado a vida entre livros, a descobrir o mundo, o pasmo derradeiro é, nesse caso, mais difícil de mastigar. Entre tantas páginas crípticas, tantas leituras clandestinas, tantas transgressões, como foi possível manter Jean Meslier e o seu escrito rigorosamente escondidos dos seus olhos (abertos, digamos, há uns cinquenta anos)? Que santa aliança juntou a política, a clerezia e a acção cultural nessa eliminação radical até 2002? E que cautelas terão conduzido a editora lisboeta a intitular o volume de «Memória» e a fechá-lo com artigos pró e contra Meslier? Ai liberdade, liberdade!
O «Testamento» e o nome do autor, revelados de súbito, espevitam o leitor português escandalizado. Porém, nenhuma enciclopédia doméstica cita Meslier, apenas o Dicionário Filosófico, editado em 1972, lhe dedica um aliás excelente artigo, onde o dá como «filósofo materialista, fundador da orientação revolucionária no socialismo utópico francês». É muito e é pouco! Vou à Net e então a cena abre-se de todo. Só na Wikipédia deparo com um nunca acabar de referências…
Não há dúvida, no universo da cultura resta sempre um continente novo por explorar à nossa espera. Porque este mundo é mesmo surpreendente.
(Ilustrações: pormenores de grafito, Merc. Bom Sucesso, Porto)

1 comentário:

Anónimo disse...
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