segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Língua... pícara

Manuel Rodrigues Lapa considerou o nosso idioma materno uma língua de cultura e eu, em livro do ano 2000, coloquei-a no panteão como a marca maior do génio português. Todavia, também advertia naquele texto, na forma de surdo lamento, uma deterioração em curso dos sons vocálicos. Trata-se de uma erosão fonética curiosa. Sons de aa, oo e ee em palavras que na articulação normal deveriam ser abertos, estão a ensurdecer por aí como se os falantes tivessem fôlego a menos ou já fosse feio torná-los sonoros. É o caso, por exemplo, de fácil, berma, penhora, que soam como facil, bêrma, penhôra.
O fenómeno recrudesce sem corrector visível ou possível, ao lado do castelhano, que se mantém bastante fiel à herança da matriz latina. Por outro lado, não por acaso, o português do Brasil – do qual nos chegam diariamente as falas através das telenovelas – oferece entonações sedutoras que bastam para atrair numerosos candidatos à lusofonia creio que, desde logo, pela sua sonoridade.
Em pasmo fico quando aponto o fenómeno com preocupação e os meus amigos me dão a sentir a imensa despreocupação que é deles. Alguém há-de acordar um dia… e será tarde!


Lembrando factos com toda a simplicidade: a novela «Lazarilho de Tormes», de meados do século XVI, inaugurou a picaresca na literatura espanhola. E a ficção picaresca ficou desde então como a marca mais original e caracterizadora da literatura castelhana.
Dizer que «Lazarilho» é um clássico emérito é, portanto, dizer o mínimo por óbvio. Mas é um clássico deveras popular desde que surgiu, especialmente nos dois países ibéricos. Seria curioso e elucidativo averiguar quantas traduções e edições portuguesas a novela já teve ao longo de quatro séculos e meio. Duas das mais recentes, do século XX, põem em equação os seguintes aspectos:
- Os editores e os leitores deste tempo andam a prestar pouquíssima atenção aos clássicos da literatura universal, talvez porque rodopiam hipnotizados em torno do que é efémero, como se não houvesse mais nada;
- O «Lazarilho» publicado no início dos anos ’70 em «livro de bolso» e apresentado como «texto integral» (indicação na capa) pela antiga editora Portugália, em Lisboa, não é realmente a novela completa, pois lhe faltam as partes «críticas» suprimidas pela censura eclesiástica da época, o que de algum modo restabeleceu em Portugal, na segunda metade do século XX, a Inquisição espanhola do século XVI. Além de que a tradução exibia defeitos.
- A edição integral foi editada em 1977 pela Civilização, do Porto. É ainda hoje a mais recomendável (posto que tenha sido eu o tradutor e prefaciador), embora aquela livraria-editora fosse considerada de orientação por sinal bastante conservadora. (Ilustração: desenho de Emerenciano)

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