domingo, 3 de fevereiro de 2008

Não são de ninguém?

Uma das experiências mais marcantes da minha vida recolhi-a em 2003, em contacto com estudantes (do 2º e 3º ciclos) de um colégio católico de Famalicão, Anadia. Aceitara o convite para ir falar-lhes dos autores e da cultura regional bairradina e do lugar que ocupam no universo da cultura portuguesa. Uns duzentos jovens, aproximadamente, encheram a sala. Uns quantos, pelas idades aparentes, indiciavam insucesso escolar.
Perante tal público, comecei por um preâmbulo para enquadrar o tema e lembrei o habitual sistema de pertenças que nos envolve e socializa. Uma estranheza tornou-se em breve tão nítida que, enfrentando-a, interroguei quem me ouvia:
- Então vocês não sentem que pertencem às vossas famílias, às vossas amizades, à vossa terra, à equipa de futebol que aplaudem, à pátria, e até ao próprio tempo da vossa vida?!
Respondeu-me um mutismo absoluto. Espantoso.
Considerei o motivo: era só um, o mais tremendo.
Aquelas novas gerações sentiam que não pertenciam a coisa nenhuma! Desenraizadas, sem referências visíveis, sem pais nem mães, sem namoros, sem raízes. Entregues a si mesmas, sim, mas arrebanhadas e ensimesmadas, despojadas de qualquer pertença. Nem religião, nem igreja, embora estudassem em escola dirigida por uma religiosa. Supondo talvez que nessa matriz desmatrizada estaria a afirmação mais conseguida de uma autonomia individual pós-moderna!
Gelei. Abreviei a palestra que tinha em vista e a sessão remediou-se com um excurso sobre jornalismo e temas conexos, assaz excitantes para aquelas imaginações juvenis. Mas ponderei: como poderão viver estas novas gerações privadas de qualquer sistema real de pertenças?
Barricando-se num opaco individualismo (supondo que assim reforçam uma mirífica autonomia), os indivíduos amesquinham-se e perdem-se.
Sem dúvida nenhuma, para todos os efeitos, são as ligações estabelecidas por cada indivíduo às suas comunidades concretas (a pequenina e, degrau a degrau, até as maiores) que, socializando-o, lhe atribuem uma dimensão humana. Sem tais ligações, o indivíduo mora no vento. Sem densidade, paira.
À memória vêm, inevitáveis, determinadas cantigas que andam no éter. Uma voz de certa banda portuguesa muito popular, entoa: «Quando se nasce nasce-se selvagem, [tu, jovem] não és de ninguém»; e outra voz, de outra banda, alinha: «Ninguém é de ninguém mesmo quando se ama alguém»… Palermices deletérias que as rádios, incluída a RDP, elevam frequentemente à antena!
Eis as parcelas e a soma. E não há quem se queixe?

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