sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

O espírito religioso...

Relendo Hume:
«Se a superstição vulgar é tão benéfica para a sociedade, disse Fílon, como se explica, então, que por toda a história abundem os relatos das suas consequências perniciosas para os negócios públicos? Tumultos, guerras civis, perseguições, subversões de governo, opressão, escravatura, estas são as tristes consequências que sempre acompanham a sua preponderância na mente dos homens. Sempre que o espírito religioso é mencionado numa narrativa histórica, podemos ter a certeza de que iremos em seguida encontrar uma descrição detalhada das misérias que o acompanham. E nenhuma época pode ser mais feliz ou próspera do que aquela em que nunca o tiveram em conta ou em que nunca ouviram falar dele.»
«É um absurdo acreditar que a Deidade tem paixões humanas e uma das mais baixas paixões humanas: um apetite insaciável por aplausos. É uma inconsistência acreditar que, tendo a Deidade esta paixão humana, não tenha também outras e, em particular, um desprezo pelas opiniões de criaturas tão inferiores.»
«E se esse Ser divino estivesse disposto a ofender-se com os vícios e as loucuras dos tolos mortais que são a sua própria obra, os adeptos das superstições mais populares estariam certamente em maus lençóis.» (Diálogos Sobre a Religião Natural, trad. Álvaro Nunes, Edições 70, Lisboa, 2005, pp. 135, 143 e 144, respectivamente.)


Um outro livro que há dias acabei de ler tem título desafiante: O Fim da Fé. O autor, Sam Harris, americano e talvez judeu, reage aos ataques do 11 de Setembro declarando «guerra ao terrorismo». Apoia Bush e a teoria do choque de civilizações, a guerra preventiva e o Estado de Israel, etc., num contexto mundial em que, na sua opinião, o pacifismo é imoral. Tudo altamente polémico, em linha com o pensamento da direita no poder em Washington e portanto de acordo com uma expansão do «imperialismo americano», esse outro evangelismo militarizado. Ataca o fundamentalismo islâmico a partir de um outro fundamentalismo, o seu, que não analisa nem justifica. É uma retórica irritantemente tendenciosa pelo que contém de propagandístico. Questiona-se o leitor: terá isto algo a ver com uma estratégia de defesa pessoal do autor? Com efeito, Sam Harris insiste em condenar ao longo do seu livro a fé religiosa e vai ao ponto de considerar que as crenças não devem ser respeitadas, sejam cristãs, maometanas ou judaicas. Para ele, o Ocidente permanece, neste aspecto, imutável desde o século XIV, atraso este «gravíssimo» (sic), que apela à intervenção metódica da racionalidade em todas as esferas de acção humana. Contrapõe ao Ocidente o Oriente e acaba por admitir o budismo.
Achei a leitura penosa mas também estimulante. Num tempo de comportamentos «politicamente correctos» (logo conformistas), gostei de ver o norte-americano corajoso e finório que me aparece a repudiar em bloco as crenças tradicionais embebidas em sobrenatural.

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