sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

O livro do comércio

Repetem-se no meio literário português uns casos curiosos. Habituamo-nos a best-sellers sucessivos. Novos escritores surgem publicando três ou quatro livros por ano. Um, em seis anos, somou mais de vinte: poemas, ficções, peças de teatro. Quer fazer estouro?! Críticos mediáticos deram atenção à obra de um deles, G. M. T. Enchem páginas de parangonas mas dizem pouco. Lembro um por dizer que o autor era muito criativo: em vez de escrever, por exemplo, «a vizinha Espanha», preferia «a Espanha vizinha». O crítico, então, não estaria deslumbrado, estaria expectante. Mas G. T. M., nascido em 1970, inunda tudo de persuasão alagadora. Só nuns quatro anos iniciais, averbou na sua bibliografia catorze títulos (ficções e poemas), diversos dos quais distinguidos com prémios, traduzidos e editados no estrangeiro… A obra recente do autor trazia já na contracapa, como abonadores do seu génio, palavras encomiásticas de Hélia Correia e Eduardo Lourenço, além de Helena Vasconcelos e Mafalda Lopes da Costa. Um leitor, crendo na praça literária lisboeta (onde se fazem e desfazem famas e reputações e tudo acontece porque o resto do país é «província»), pega no livro e aprecia. Espanto! Onde estará a Jerusalém reconquistada, a revelação, o génio, o maravilhamento?! Espanto a recrudescer: passa um tempinho e o romance é cumulado de prémios e celebrado como a obra máxima do ano na Itália, no Brasil, depois na Europa multinacional!...
…E vem à memória a resposta mordaz que Humberto Eco, o sabido, deu numa entrevista por volta de 1990: decidira parar de ler as novidades literárias e esperar dez anos para então, se valesse a pena, lê-las! Sugerindo que essas novidades de estrondo iriam antes ficar esquecidas…


Faz-se lembrar o discurso que o romancista John Maxwell Coeetzee dirigiu à Academia Sueca ao receber em 2003 o Prémio Nobel de Literatura. Não foi um discurso formal, pois se assumiu como narrativa, significativamente intitulada «Ele e o seu homem». Muito a propósito, observou: «Porque lhe parece agora que no mundo há apenas um punhado de histórias; e proibindo-se que os jovens pilhem os anciãos, os jovens terão de ficar para sempre em silêncio.»
Mas quem os cala?

A transformação do livro, objecto com dignidade cultural, em vulgar produto de consumo expansivo, rápido e lucrativo, declarou-se na onda de compras das principais editoras portuguesas pelo grande capital. Apanhados de surpresa, os leitores não estavam nem estarão preparados para enfrentar a viragem. O livro produzido pela indústria cultural banalizou-se. Abunda nas grandes superfícies comerciais e serve, como chiclets de mil sabores, para levar à boca, mas engorda como fast-food e talvez venha a substituir o Prozac. Entra por uma abertura e sai por outra sem deixar coisa que se veja, nem memória, no tubo…

Sem comentários: