quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

O que o povo quer...

Pelas mesas do café onde me sento de manhã para ler o meu diário vejo andar de mão em mão o suplemento de pequenos anúncios do jornal em que escrevi a espaços ao longo de quase toda a vida. É notório: a leitura daquelas páginas enegrecidas pelas tintas interessa a freguesia muito mais do que a treta desportiva… e eu sei os gordos lucros que o suplemento dá à empresa editora!
Habitações para alugar ou em compra-venda, negócio de automóveis, ofertas de sexo, empregos, etc., geram um caudal publicitário que, em termos comparativos quanto aos espaços ocupados, é dos mais caros da tabela de publicidade. Entretanto, a «feira» dos pequenos anúncios agrandou-se e transformou-se numa espécie de instituição.
Aquele suplemento a passar de mão em mão e de mesa em mesa, como bíblia matinal, acorda em mim uma recordação. Nostálgica, fatalmente, pois está a virar-me para um tempo remoto, meados dos anos ’80. Constava-nos que a administração do jornal mandara fazer um estudo-inquérito de mercado cujas conclusões mantinha num secretismo singular. A nenhum jornalista eram divulgadas e apenas alguns «interlocutores válidos» dos administradores pareciam conhecê-las de raspão, mas estes limitavam-se a prevenir-nos que as conclusões eram absolutamente explosivas, arrasadoras.
Na altura o jornal venderia uns sessenta mil exemplares diários e já ocupava uma boa quantidade de espaço com os pequenos anúncios, de modo que a gestão da empresa era folgada, lucrativa e mesmo apetitosa. Situação grata em especial para os jornalistas da casa, que se esforçavam por elaborar uma informação isenta e séria, percebendo que todo o jornal do dia se submete na rua a um eficaz plebiscito. Pelo que compram e lêem, os leitores decidem o que querem…
Os vinte anos seguintes promoveram uma viragem total. A meia dúzia de páginas tornou-se suplemento (em tamanho, quase outro jornal só de anúncios), os jornalistas isentos e sérios foram-se embora levando consigo os ideais, o jornal duplicou as vendas graças a uns concursos comezinhos e começou a dar os maiores lucros de sempre (agora a outra empresa proprietária).
Na verdade, as conclusões do famoso inquérito apontavam justamente – soube-se mais tarde – para esta preferência maioritária de leitura popular: pequenos anúncios!
Assim o povo ordena… com a inteligência que denota.


Participei como secretário numa direcção de jornalistas da qual L. H. M. era presidente. Projectei a publicação de uma folha de informação para os sócios, elaborei a folhinha A-4 dobrada ao meio e mostrei-lha. A primeira página abria com «editorial», um breve texto não assinado que apresentava e justificava a edição. Ao devolver-me o original, o presidente apontou a gaguejar para uma emenda que fizera naquele texto: em vez de executar escreveu realizar. E mais nada. Mas no fim, lá apareciam umas iniciais acrescentadas: L. H. M. Saúdo o grande autor!

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