quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

O telex «pedrado»

Ninguém entendia um telex redigido em inglês, proveniente de agência internacional de notícias. Tomei-o nas mãos. Efectivamente, era ambíguo: o texto não tinha aspecto de notícia, nota de reportagem, comentário, nada disso. A tradução pedia dente afiado, competente, que não aparecia. Mas eu, que do inglês assumidamente sabia pouco mais que nada, depois de ler em diagonal o texto, adverti nas primeiras linhas a palavra «stoned» entre outras conhecidas e concluí logo que se tratava de uma brincadeira de algum redactor da agência que se divertia a confessar-se «pedrado».
Mal acabara de explicar isto ao J. S. e já ele me arrebatava o papel e, agitando-o na mão erguida como bandeira de vitória, anunciava aos companheiros próximos que, oh façanha, conseguira a tradução!
Recordei agora este episódio ao encontrá-lo por acaso na Biblioteca Pública. Tinha um emprego precário, de simples tarefeiro, pois saíra do jornal onde fora introduzido para ajudar a uma viragem à direita na redacção; imaginou-se ali com apoio «grande» até ao dia em que das nuvens caiu em desgraça.
Quando entenderão estes pobres serventuários que não contam nada para quem os usa como peças de xadrez nos tabuleiros dos seus jogos?


Pela redacção passavam usualmente uns quantos fulaninhos para «experimentar» o jornalismo em trânsito para coisa mais proveitosa – a política, o ensino, o negócio. Cuidavam mais da própria imagem nas suas relações profissionais e sociais que da informação. Para todos os efeitos, estavam ali em colheita de passagem.
E. P. B. foi um deles. Recém-licenciado em Letras, escrevia com os pés, aos trambolhões na sintaxe e na ortografia a tal ponto que por vezes se tornava hermético. Desculpava-se dizendo que os seus professores não tinham conseguido ensiná-lo – os incompetentes! - e entretanto ia abrindo caminho em áreas de negócio externo na «crítica de arte».
Os seus escritos careciam, no mínimo, de atenta revisão, de profundas emendas, requisito indispensável para a publicação. Todavia, isso equivalia a reescrever-lhe os trabalhos, no fim de contas, a «limpar-lhe a cara» em público. Surpresa: enquanto esteve ao serviço da redacção, E. P. B. assinou abundantes textos, que saíam no imediato em prosa escorreita porque alguém, na sombra, à última hora, sistematicamente, lhe fazia o favorzinho…
Contraste! Eu tinha que vigiar bastante o que escrevia e assinava para que não viesse à luz com falhas ou deturpações esquisitas. Ensinando-me que, numa redacção, podem coexistir «príncipes» e «plebeus».
Obras de santa engrácia!

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