sábado, 23 de fevereiro de 2008

Os «poetas» e os outros

Alguns companheiros estranham, porque me conhecem o percurso e o perfil, que nunca me tenham visto integrado em comissão de trabalhadores, conselho de redacção, num órgão de classe. Item explicativo: o jornal é sítio que não engendra amizades e, pior ainda, o trabalho jornalístico e, nas horas vagas, o literário, absorveram-me sempre. Numa linguagem mais chã: não me sobrou tempo para ir aos copos com compinchas de ocasião, a tecer cumplicidades e a engendrar carreirismos. Ou seja, não andei a vender-me aos meus próximos.
Pecado capital. Os compinchas toleram menos as singularidades de um diverso que as patifarias de um vulgar trampolineiro.
Pondo as coisas a descoberto: as pessoas reconhecem as diferenciações individualizantes e acham-nas inevitáveis, em teoria, mas tendem a procurar e a juntar-se com «iguais». São pessoas «normais»… Tendem a segregar do clã quem declarem «diferente» e, embora correcto e qualificado, cheio de boas intenções, demonstre o sinal da diferenciação: acordará contra si a força do número, a ditadura de uma certa vulgaridade.
Indubitavelmente, o espaço estabelecido de uma certa vulgaridade está longe de ser o céu na terra. Disso me quer convencer M. O., que me telefona queixosa e não menos perplexa. Franca e amiga, avessa a duplicidades, falha, diz ela, ao querer relacionar-se positivamente com os colegas do seu escritório e sente-se ostracizada como se fosse leprosa. Vê-os em óptimos entendimentos depois de lhe terem feito, quando se sentiam desfeiteados, críticas a tudo e todos, elogiando mesmo a sorte dela, que estava fora da «panelinha»… e depois tornam a imiscuir-se no grupo.
Pergunta-me M. O. se merece a solidão em que a deixam. Digo-lhe que é esse o nome da sua paz. Se for a mulher que imagino, descobrirá nela própria bem melhor e mais preferível companhia.


No princípio dos anos ’90, um político declarou na comunicação social que os jornalistas eram afinal uns empresários. Quereria dizer «comerciantes», o que evoca por contraste o caso do L. V. L., poeta exilado no Rio de Janeiro, a quem um amigo arranjou uma coluna num diário para ganhar a vida e ele, poeta, queixou-se: a sua colaboração no jornal não era paga. Ouviu a resposta: então L. V. L. tinha a coluna à disposição e ainda perguntava como havia de ganhar a vida?!
Fui dos poucos ingénuos que viu na afirmação do político português uma aleivosia, mas olhei em torno e mais longe. Vi poucos interessados na profissão pela profissão, muitos que passavam por ela como se fosse plataforma de trânsito ou nela permaneciam ao serviço de corporações… fazendo entretanto os seus outros miúdos negócios privados.
Jornalistas vocacionais eram uns pobres «poetas», como L. V. L., que se davam apaixonadamente à profissão porque sim e se viam marginalizados pelos companheiros que à socapa os envolviam em desdéns e desprezos.

3 comentários:

Anónimo disse...

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Anónimo disse...

Gostaria de saber se estes textos do Arsénio evocam um certo passado ou um certo presente da profissão jornalística. E se focam o ambiente do Porto. Interessa-me esclarecer este pormenor, pois sei que o Arsénio está reformado há já uns anos...
Abraço,
Mário

Anónimo disse...

O comentário do amigo Mário é de agradecer por me permitir esclarecer:
- As evocações do ambiente de uma redacção que mais conheci reportam-se todas ao início da década de '90 e anos anteriores, ou seja, até à minha aposentação;
- Recolhem vivências do meu ambiente profissional na cidade em que vivo, o Porto;
- A traços largos, creio que não se diferenciam nada do que possa registar-se por exemplo em Lisboa;
- a viragem que ocorreu e se acentuou no país, a partir de 1990, na Informação, no Jornalismo e nos jornais foi tremenda. A concentração dos meios de comunicação em poucas mãos, por um lado, e a multiplicação de candidatos jovens, saídos dos cursos e com licenciatura profissionalizante, ao primeiro emprego no sector, precipitou, por outro lado, uma situação dramática: estágios não remunerados, tarefeiros a recibo verde, contratos a prazo... e um ambiente de cortar à faca a demarcar um «antes» e um «agora»!! Mas jornais em outros países não escaparam à onda...
E é tudo o que posso dizer, Mário. Volte sempre!
Ars