quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Para mim o digo

Para mim o digo, acho que honrei mais o jornalismo do que a profissão me honrou a mim. Insisto na afirmação, convicto de que poucos leitores de jornais perceberão o seu verdadeiro alcance. Decerto nem imaginam quantas vezes a profissão me envergonhou ao ter que a exercer junto de certos profissionais, logo com eles estando confundido. De qualquer maneira, eu dispensaria o qualificativo sempre que vem mencionado. Dei o mais que pude à profissão mas não me prezo de a ter exercido.
Curiosamente, outro aspecto que continua sem remedeio possível é o de estabelecer, para valer sem mais prova, que fui para o jornalismo profissional depois de me situar no plano da literatura. Era então, no fim dos anos ’50, colaborador regular e remunerado de jornais diários, como o «Jornal de Notícias», em cuja redacção ingressei uns anitos depois. Entrei pela «porta baixa», como estagiário, e tarimbei, olhado de revés pelos profissionais, duvidosos se um «literato» (sic) era capaz de redigir a notícia mais simples. E faziam constar a peripécia: Alexandre Herculano tentara um dia escrever uma «chapa cinco» e, depois de falhar diversas tentativas, desistira. Badalavam: Alexandre Herculano, ahn?!
Ousaria eu avantajar-me a um Herculano?!
Provei-lhes rapidamente que se enganavam. Sem ter a estatura do historiador exilado em Vale de Lobos, redigi notícias, artigos, entrevistas, crónicas, reportagens… De facto, a escrita jornalística não poderia confundir-se com a escrita literária, mas ambas recorriam à expressão verbal no fenómeno da comunicação – e era aí mesmo que eu estava e queria continuar a estar!


Um jornalista, J. S., depois deputado socialista, morreu deixando recordações. A última vez que o vi foi no televisor. Imagem deprimente do inveterado tabagista, desdentado e asmático. Traz à lembrança alguns episódios vividos em comum. O dia em que ele, puxando-me pelo braço, se pôs a soletrar trechos da crónica que eu assinava no jornal do dia. A demonstrar como estava bem escrita e dando-me o direito de acreditar, porque o conhecia, que antes alguém lhe pusera na atenção a pequena maravilha… Para J. S., o autor da «pérola», coitado, tão modesto que era, talvez nem soubesse apreciar o que fazia! E aquela ocasião em que ele, com prosápia disfarçada de candura, me explicou como ascendera de redactor à direcção do jornal graças a uma estratégia exposta ponto por ponto… e sem atingir, sequer suspeitar, que estava perante um jornalista que jamais quereria ser director… Porque, eis a questão!, ele, director com prazo de validade à vista, fora capaz de proibir a publicação, em regime democrático, de um texto meu, de opinião, durante uma greve de jornalistas… Grande façanha! Teve prémio: foi para a Assembleia da República.
O jornalismo ficou para nós outros.
Nota: se esta evocação peca por impiedosa, venham à colação as picardias de J. S., por elas primeiro atingido. (Grafito, pormenor central. Esc. C. Michaelis, Porto)

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