quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Prestígio exterior

A mim e aos companheiros do jornalismo da mesma geração surpreendeu-nos sempre o prestígio incrível que esta profissão tinha para quem a via de fora. Era profissão sedutora, alvoroçava as imaginações ao ponto de tornar inacreditável, por tão estreito, um salário real. Triplicado, já convencia… Porém, conseguir multiplicar por três o vencimento sem mentir ou sem atropelos mais ou menos sérios à deontologia e à honra pessoal, era raro. Logo, como estranhar? Ocorriam cedências, pecadilhos, venalidades, acordos escondidos na manga. Chegou a dizer-se que comprar um jornalista nem era caro, bastava um almocinho e umas palmadinhas nas costas. A redacção continuava «escola de civismo». E foi assim… Começara a publicar uma série de textos acerca do valor da floresta enquanto elemento ecológico, económico e paisagístico para enaltecer o mérito da fibra da madeira inclusive para o fabrico e exportação da celulose. Ao segundo dia, o companheiro J. C. quis apresentar-me um enviado por uma empresa produtora da celulose. Quis ele saber que havia mais três textos da série para sair, fez-me notar a preocupação da sua empresa quanto ao teor do meu trabalho e eu pude tranquilizá-lo: tratava então, simplesmente, de «descrever» pela rama os dados factuais do sector nacional, não de estabelecer abordagens polémicas. Não o terei conseguido de todo. O companheiro J. C. logo me convidou a, se quisesse, passar a receber da empresa um estipêndio. Declinei a oferta e fiquei mais bem informado de quem era quem na redacção.


Conheço J. T. do trabalho nos jornais. Por vezes surge no café matinal onde sabe que me encontra debruçado na leitura das notícias. Hoje telefonou a manifestar uma estupefacção.
- Fui ao seu café e não o vi. Mas quer saber? Perguntei se você ali tinha estado e se já tinha saído, disse o seu nome e lá ninguém sabia quem era!
- Pois não. É natural que ignorem o meu nome.
- Então você não frequenta aquele café há dezenas de anos?
- É verdade, frequento. Mas nunca houve necessidade de lhes falar de mim. Basta-lhes saber que desejo o café cheio, sem açúcar e bem tirado!
J. T. conhece meia cidade, sabe juntar o nome a cada rosto que circule na praça, conhece a crónica de muita gente, devia estar a ouvir-me com imenso espanto. Porque onde pára, faz conversa. Diz quem é e indaga de quem lhe fala. Serei eu menos comunicativo? Na verdade, entro naquela porta e sento-me àquelas mesas há uns 25 anos bem contados, lidando agora com os terceiros donos do café. Encontro migalhas espalhadas pelo tampo ou a cadeira, o ambiente poluído por fumo e vozearias, fulanos a cervejar às 9.15 horas da manhã. Ora, ora, em mim o hábito manda e comanda.
Para cúmulo, o café ostenta um nome absolutamente insólito: «Belo Sonho». Levou-me a escrever um conto com esse título.

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