segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Querer não querer

– Quero não querer! – disse eu como quem se justifica de modo a esclarecer a conversa.
– Olha, olha, ele não quer nada! – exclamou o meu interlocutor. Reagira em voz alta para ser ouvido, em manifesta discordância e até de absoluto escândalo, como se me acusasse, perante os presentes, por eu ter dito que ia atirar-me da janela da redacção, contagiar-me de olhos abertos com sida, ou querer morrer já ali fulminado.
– Eu não disse não quero, disse quero não querer! – reafirmei, paciente e melancólico, sabendo perfeitamente que não mais seria atendido. Podia contribuir para fortalecer uma ideia feita, não para a corrigir ou anular.
Se tivesse dito algo como: desejo não desejar, ambiciono não ter ambições, interessa-me não ter interesses para exprimir a mesma atitude de princípio, obteria idêntico resultado. Arriscava-me, desafiando a compreensão de quem me rodeava. Dava-me a conhecer como «outro», mas eles ouviam-se surdamente a si próprios na esfera restrita dos seus interesses onde apenas os «semelhantes», num jogo de espelhos, eram reconhecidos…


Em circunstância posterior ousei experimentar outros companheiros próximos. Poderia falar de modos diversos para exprimir a mesmíssima coisa, mas foi isto que me saiu:
– A minha ambição é não ter ambições.
Claro e perceptível era o sentido da frase, conjecturei. Errado! Um colega saltou imediatamente e, atravessando a redacção, clamou em acusação para escândalo geral:
– Ele não tem ambições!
Mais escandalizado, porém, fiquei eu. Afirmara exactamente o inverso, definindo até uma posição quanto a isso, mas o companheiro de jornalismo não me ouvira – ouvia-se!
Porque, vejamos, eu tinha ambições (e, ai de mim, vou tendo), só que eram diferentes e até divergentes das que a lei do número ditava no rebanho onde o colega se inseria. Contudo, as minhas ambições pessoais, que de resto declarava querer banir, não eram reconhecidas ou reconhecíveis pela mentalidade reinante. Tão-pouco era lícito (leia-se decente) proclamar ambições diversas dentro do rebanho sem discutir, reflexamente, a lei do rebanho. Lei totalitária, portanto. Do grupo contra o indivíduo isolado. A aconselhar a uniformização, pelo menos aparente, das mentalidades e comportamentos gerais, ou seja, dos valores éticos e estéticos do grupo. De contrário, o «resistente» era tomado por ceguinho. Inteligente era apenas quem mostrava pensar e agir como eles. Ambições, sim, apenas as «normais», de gente «normal».
De qualquer modo, estes confrontos foram assaz esclarecedores de quem era eu e com quem estava…

4 comentários:

Anónimo disse...

Caro Arsénio:
Só hoje soube do seu blog.
Conte com mais um leitor agradecido.
Abraço,
Rui Vaz Pinto

Arsénio Mota disse...

Caro Rui Vaz Pinto:
É com prazer que o prevejo regressado dessa ida ao Brasil. Agradeço o interesse e incentivo que manifesta, vale bem este abraço cordial que lhe envio!

Anónimo disse...

Caro amigo:
Quem lê estas palavras e sente o ambiente que reina nos empregos e até nos espaços de convívio e lazer, onde supostamente estarmos à vontade com pessoas conhecidas ou que nos parecem mais próximas, acaba por sentir que ser diferente está, digamos que, «fora de moda».
Ser diferente, nos dias que correm é ser incómodo, até mesmo perigoso. Perigoso porque ser-se diferente é contrariar a corrente do rebanho e porque o rebanho, por sua vez, pode abafar ou aniquilar o «ser diferente».
Época difícil esta!

Abraço,

Isabel Domingues.

A. M. disse...

Isabel, cara amiga:
Sejas bem aparecida, tardada que estavas! E sobre o que dizes, embora seja triste, tenho que concordar: em voga está, não o ser diferente, rebelde à massificação (parece já valer como provocação!), e sim o conformismo, por vezes cego ou mesmo estúpido. Problema: serão mesmo assim tão iguais os carneiros de uma carneirada?! Entretanto, conheço licenciada que tem emprego precário porque lá está escondendo que é licenciada; a filha mais velha de um amigo tem de apresentar no seu emprego facturas da quantia total do seu salário, que entra na firma como «despesa», etc. Cada vez mais vozes pedem um raio que parta «isto»!
Enfim, amiga, volta sempre. Se possível, trazendo os desenhos que prometeste, o blogue espera-os. - Ars