segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Re-ligação, precisa-se

No jornal que costumo ler encontrei uma notícia tão inesperada que se me afigurou incrível na sua singularidade. E foi assim: precisei de esperar trinta anos em regime de liberdade de expressão democrática para me deparar com a maravilha!
Um italiano ia a tribunal de Viterbo pedir a condenação de certo padre católico, aliás seu antigo amigo pessoal, acusando-o de impostura. Anunciava este na sua igreja que Cristo existiu realmente, que era figura histórica, sem possuir disso provas bastantes. Ora a lei fundamental italiana contempla o crime de impostura do povo ingénuo e simples…
Coincidiu a notícia com o lançamento de um livro em Lisboa. O autor, do século XVIII, era David Hume (1711-1776). Do conhecido (pelo menos de nome) filósofo inglês surgiam em português os Diálogos Sobre a Religião Natural. Era tempo. Tempo de retomar a filosofia da religião e de reavaliar o que seja a religião natural em resposta à teologia tradicional, ou seja, de sopesar devidamente a herança espiritual e, sobretudo, se possível, de resolver a famosa questão do «enigma de Hume».
Que atitude, ou posição, teria sido a dele, realmente, em matéria religiosa? A de ateu, camuflada em vista das pressões do seu tempo?
No início do século XXI, a questão parece mais abordável mas nem por isso promete de facto resultar mais produtiva. Escasseia o espaço para discutir Hume no espaço do capitalismo selvagem e da globalização económico-financeira acelerada, ou melhor, da alienação e do conformismo. É reconhecível o esforço do autor dos Diálogos para retirar a moral da religião a fim de pôr termo a tão perniciosa mistura, no sentido de vir a estabelecer-se uma verdadeira religião. Sublinham os comentadores que o autor espalhou pelas páginas que escreveu numerosas observações sobre o tema, mas que nunca definiu cabalmente o que pensaria a tal respeito. Porém, este reparo não colhe. Equivale a pretender que Hume exorbitasse do seu papel, coisa a evitar no seu tempo, por certos motivos (possíveis perseguições), como neste tempo, por outros (recusa do humanismo).
Penso que o «enigma de Hume», afinal, não é enigma nenhum. Ele desejou e esperou, simplesmente, que os homens pudessem e soubessem aprender a viver em sociedade tal como os mais humildes seres da natureza, isto é, em perfeita harmonia. A «religião natural» seria a efectiva re-ligação do homem individual ao todo que é a humanidade no seio da natureza. Por outras palavras, a «religião da humanidade» seria a única com verdadeira justificação no mundo, projectando este para a dimensão cósmica que realmente o insere.
O «enigma» reside na incompreensão deste desiderato. Algo tão simples e natural que, à evidência, se torna numa dificuldade insuperável para este incorrigível e cada vez mais perigoso e bárbaro género humano!

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