domingo, 10 de fevereiro de 2008

Recordações

Em 1958, estava eu de regresso à terra natal. Henrique Barreto continuava a dirigir o «semanário republicano» por ele fundado e em cujas páginas começara a escrever artiguelhos uns cinco anos antes. Mas o homem ia então nos 82 anos e o seu jornal, a «Gazeta de Cantanhede», a publicar-se desde 1917, também pediria algum renovo. Era difícil lançar naquele tempo um novo jornal, pois o regime da ditadura filtrava cuidadosamente as candidaturas à respectiva licença. Iria a «Gazeta» acabar quando o seu director e proprietário desaparecesse? Por que não pensar e preparar uma evolução?
Um dia, em conversa cordial à mesa do café próximo, expus-lhe estas considerações. Não desejaria ele ter um continuador?
Acendeu-se nos olhinhos frios de Henrique Barreto uma chamazinha. Mas ele propôs um negócio, uma venda. Vendia-me o jornal – assim mesmo! Por que preço, indaguei. Trezentos contos. Era quantia avultada e até bastante inesperada (serviria para comprar um prédio catita), que no entanto ele se esforçou por justificar: o jornal dava-lhe um lucro líquido substancial. E era receita regular, pingava.
Não pudemos chegar a acordo, lamentavelmente. Adverti-o de que, por tal caminho, a «Gazeta» iria extinguir-se sem deixar rasto nem qualquer glória para o seu fundador. E foi o que aconteceu em 1973, quando morreu Henrique Barreto. Sem proventos de venda…


Celestino Neto era pessoa respeitável, muito recta e ponderada. Recebera nas mãos, por disposição de Eugénio Ribeiro, o semanário «Independência d’Agueda», jornal com tipografia própria, e manteve-o sem quebra, desde 1962, graças a apoios de colaboradores e amigos fiéis. Se as colaborações minguavam, a velha máquina de escrever do director demorava-se mais tempo a bater as teclas para que as páginas do semanário saíssem preenchidas e a correspondência continuasse a ir para o correio. Desistiu sentindo-se esgotado de forças, mas antes cuidou de lançar um aviso para que os amigos do «semanário republicano» interviessem de modo a garantir a continuidade da publicação. Ele «herdara-a», queria doá-la a quem a merecesse.
Aquele aviso, e também apelo, lançado aos democratas de Águeda, teve um único efeito: informados por Celestino Neto de que eu, recém-saído do «Jornal de Notícias», admitia a hipótese de «pegar» no jornal, inclusive mudando do Porto para lá, fui convocado para uma reunião nesta cidade. Deparou-se-me um grupo de apoiantes, meia dúzia de indivíduos, alguns dos quais desconhecidos, e por fim acordámos, facilmente e de bom grado, na solução. Eu iria tomar conta do semanário, era compromisso não escrito mas validado «porque era de cavalheiros».
E nem mais uma palavra se ouviu sobre o assunto. Nunca mais.
Celestino Neto desapareceu em 1969, com 82 anos. E o jornal também, tristemente.

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