quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Um relance ao céu


Num tempo cheio de muito outrora, ao espremer verdades feitas, apercebi-me do caso: os católicos, qualquer que fosse o fervor da sua crença, não se diferençavam visivelmente de quaisquer outras pessoas conhecidas sem prática religiosa. Diferençavam-se, sim, pelas características da personalidade própria de cada uma inclusive entre os católicos. Não era, pois, a religião um elemento distintivo na vida quotidiana. Imperava o mesmamente na regra dos costumes, e eu, num pasmo ingénuo, andei a magicar: se o catolicismo não manifesta a presença no comportamento objectivo das pessoas crentes, que papel exerce na realidade?
Deste espanto caí noutro e tão incrível – porque era tão surpreendente quanto absurdo – que me agarrou e ficou. A religião promete o Céu mas esquece-o, colando-se ao rés do chão escuro. Aplica-se afincadamente a preparar os crentes para ascenderem a esse Céu feitos alma libertada da vida terrena e coloca-os, tementes de Deus na morte, de olhos fitos nos nichos dos santos com abóbadas pintadas de azul celeste e estrelinhas de oiro. E quando o oficiante invoca o Céu no altar, os crentes vêem-lhe tão-só o braço erguido a apontar para o alto. A catequese ensina-os a rezar de olhar erguido mas sem os advertir de todo que estamos num planeta que gira em torno do Sol, numa galáxia algures na Via Láctea, no Universo em expansão povoado por outras infinitas galáxias e ainda mais infinitos sóis e sistemas planetários.
O Céu místico transformou-se numa simples metáfora para os que não se cansam de o invocar em construções de horizontes fechados como canção embaladora e o caso impressionou-me tanto que escrevi «um relance ao céu» para lembrar a sua existência. Não consegui desprender nem um olho da catequese e levá-lo em passeio ao céu natural, não valeu o meu sermão (aliás inédito) para nada, mas já o filósofo da minha rua o garantia, o mundo está recheado de sábias sentenças e parece cada vez mais perdido.
Imagino que os crentes, sobretudo os católicos, se prendem em demasia à terra. Afinal, não compreendem a vida que neles próprios respira. Se tivessem uma ideia do lugar que as suas existências reais cumprem neste terceiro planeta que gira em torno do Sol, e do lugar que o seu sistema planetário ocupa na Via Láctea, certamente a crença que professam teria outro alcance e o céu deixaria de ser metáfora para regressar ao seu natural.


Epicuro (341-270 antes da nossa era), tão atacado e deturpado na sua filosofia pela Igreja, e outros pensadores estoicos antigos, perante a existência do mal no mundo, raciocinaram com uma lógica implacável. Reproduzo:
«A divindade ou quer suprimir os males ou não pode ou pode e não quer, ou não quer nem pode, ou quer e pode. Se quer e não pode é impotente; e a divindade não o pode ser. Se pode e não quer, é invejosa, e a divindade não o pode ser. Se não quer e não pode, é invejosa e impotente, portanto não é divindade. Se quer e pode (que é a única coisa que lhe é conforme), donde vem a existência dos males e porque não os elimina?»

2 comentários:

Manel disse...

É por estas mensagens que diariamente eu espreito e entro na tasca do meu amigo.
Sei que não é necessário bater à porta. Venho aqui só para dizer que a blogosfera está recheada de sábias mensagens apesar de o mundo parecer cada vez mais perdido, pérolas destas são luzeiros que nos direccionam.
Abraço
manel

Anónimo disse...

O amigo Manel (eng. Manuel Jesus Ribeiro) é assim mesmo. Um espaço destes, de convívio e partilha aberta e cordial (falo do blogue, é claro), torna-se altamente gratificante para quem o habita! Só um lamentozinho pequenino: onde vai ele poder arranjar tempo para acabar de recuperar o velho «carocha» e, em especial, para dedilhar a guitarra que gostamos tanto de ouvir, além do seu engenhar profissional e etc.?
Amigo Manel, vai um abraço apertado e um muito obrigado!
Ars