segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Uma segunda natureza

Os hábitos são para mim o que normalmente são para qualquer idoso: uma segunda natureza. Encetar o dia às 7 horas ou algo depois e sair de casa em cima das 9 horas colou-se a esta rotina diária como pássaro ao voo. De jornal na mão, procuro a mesa do café, notando a presença próxima de clientes certos como eu. Uma senhora de meia idade avançada poisa os óculos nas páginas de um diário de mexericos, lendo-as a todas com uma minúcia e uma atenção concentrada que maravilha. Detém-se para tagarelar em voz alta com as vizinhas. Um velhote, seguramente reformado, fuma absorto, de beiço caído, a resolver problemas de palavras cruzadas, crucigramas, «sudokus», etc. Outro cliente habitual senta-se, fumando, com dois jornais desportivos para estudar como quem interioriza um argumentário para enfrentar assembleias de infiéis. O caderno dos anúncios anda de mão em mão, em redor de uma mesa rodeada por cinco raparigas e um rapaz, todas fumadoras menos ele e todos interessados em garimpar no rio da publicidade. E chega a senhora idosa do costume, taciturna, de cigarro fumegante na mão, a anunciar-se ao longe pela tosse cavernosa; depõe as bolsas de compras numa cadeira, bebe a goles o café, termina o cigarro e sai. Que sabor terá o café engolido de mistura com o fumo?
Levanta-se agora a moreníssima trintona, outra vez grávida mas sempre de cigarro na mão, que sai com os três acompanhantes diários para irem abrir a loja vizinha de compra e venda de objectos usados. O fulano corpulento do tique nervoso na perna, cruzada ou não, lá está encaixado a custo entre a cadeira e a mesa, a tremelicar fazendo horas. E chega outra rapariga, de cigarro a arder entre o indicador e o dedo médio da mão direita, gesto mais precioso que o de uma majorete em parada a erguer o joelho; também procura o caderno dos anúncios, vê-o noutras mãos, pára junto da máquina dos cigarros, baixa-se para colher um novo maço e, contrariada, sai. O dono da loja dos telemóveis e a companheira acabam de tomar o pequeno-almoço, ele repara na rapariga que sai e cumprimenta-a com breve aceno. Somente três pessoas, este casal e eu, de todos os presentes, não fumam… e a sala está cheia.
Cheia de fumo, de ar poluído, irrespirável.
Devo crer que as pessoas vêm ao café, mais que tudo, para fumar? Como cães que vão à rua para se aliviarem no passeio, diante dos nossos narizes?
Passei a maior parte da vida a suportar o fumo dos outros, façam o favor de ver o estado do meu aparelho respiratório, fartei-me de passividade! Encaro fixamente, olhos nos olhos, durante uns segundos, uma fumadora próxima, tentando adverti-la de que está a sujar o que é para mim uma necessidade vital inapelável, sendo ainda o mais elementar dos meus direitos, respirar, e ela baixa os olhos, lisonjeada, entendendo que a acho uma rapariga bonita, admirável…
Está bem, concordo, ao tabefe não se chega a lado nenhum. Mas não servirá ao menos para acordar quem adormece embalada como criancinha no berço?

[Trago da gaveta este texto para dar à proibição de fumar no meu café as boas-vindas!]

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