sábado, 15 de março de 2008

As novas glutonias

Acumular riqueza cria adicção, dependência, tal como as drogas «duras». E não será adicção menos séria. De facto, quanto mais a riqueza se acumula, maior será a necessidade de a ampliar, normalmente por dois motivos: o possuidor tem à vista riquezas mais opulentas e invejáveis; a segurança da sua riqueza não se consolida enquanto houver em campo riquezas mais fortes, por sua vez animadas de proporcional glutonia.
Por este caminho, o processo torna-se vicioso, imparável. Ao dar sentido à vida pela ambição insaciável, a riqueza (imensa ou grande) mostra o grau de loucura que lhe seja inerente. Quem detém tanta riqueza fica na condição de seu mero servidor ao sentir-se no dever de a conservar e ampliar.
Por outro lado, a concentração da riqueza (actualmente em concentração financeira máxima) deixou de ter qualquer funcionalidade de interesse social. Não promove mais indústria, mais produção, mais emprego; pelo contrário, tornou-se esterilmente especulativa e ferozmente predadora. Faz circular a riqueza existente fazendo-a mudar simplesmente de mãos.
Regra sadia e sábia a estabelecer consistiria então em acreditar que a riqueza pode prejudicar-nos quando nos mingua muito menos do que quando nos sobeja. Uma pessoa não precisa realmente de um gordo pecúlio para viver com liberdade e alguma qualidade de vida. Talvez não custe em demasia o que a pessoa pode consumir racionalmente em vida até partir deixando o remanescente, quer dizer, o excesso sem uso (e sem descobrir que é mais fácil acumular dinheiro do que inteligência?).


Estas novas gerações, que namoram e tardam a casar, nasceram e cresceram num ambiente de facilidades. Luziam as facilidades como promessas convincentes. Era a liberdade, era o direito, era a maior emancipação da juventude… Deparam-se, porém, com um ambiente adverso, pobre de tais facilidades. Envolvem-nas teias de dificuldades cada vez mais dramáticas e estas novas gerações, trilhadas pelo contraste, andam perplexas e abatidas. Parece que não entendem por que tanto se lhes prometia e quase nada conseguem agora salvo com incríveis sacrifícios individuais. Empregos precários, opressivos, violentos, mal remunerados. Quem lhes aponta a causa, o maremoto do capitalismo selvagem dito neoliberal?


Os europeus, e sobretudo os portugueses, imitam crescentemente os norte-americanos. Aspiram a um mesmo sistema político, copiam deles o estilo de vida - gostos, hábitos e consumos - e até já tomam os Estados Unidos em bloco como pátria ideal da civilização. Engordam os corpos com comidas rápidas, esquecendo no entanto as aspirinas. Esquecendo também que a magreza é mais saudável que o excesso de peso. Em suma, copiam dos outros o pior, não o melhor.

1 comentário:

Manel disse...

É a crise de excesso para uns a a míngua para outros. Um processo complicado em vez de ser complexo esta glutonia.
Um abraço ao sempre atento Arsénio.
Manel