sábado, 1 de março de 2008

Deus não intervém

Quando Teresa de Calcutá se finou circularam comentários a várias vozes sobre umas quantas cartas em que a «mãe dos pobres», aflita com as misérias tantas deste mundo (onde são precisos uns milhares de pobres para acumular riqueza suficiente para fazer um único milionário), exprimia a sua dúvida, ou descrença, em Deus. Essas cartas foram então justificadas por figuras da Igreja em termos razoáveis. Argumentaram: toda a fé, incluída a de Deus, vive e convive com a dúvida na medida em que crer e descrer são momentos de uma mesma vivência religiosa. Pois não passaram por momentos desses, desgarrados e angustiosos, os maiores santos?, acrescentaram. E a Igreja prepara-se para sacralizar Teresa.
Os teólogos católicos consideram que a designada «noite» ou «escuridão» de Deus tem por fim supremo pôr a pessoa crente à prova. Acontece, porém, que esta petição de princípio se torna imensamente perturbadora, pois não explica nada e abre janelas para terríveis perplexidades.
Com todos os atributos e poderes, poderá acaso Deus pôr assim à prova uma criatura? Se Ele, omniscientemente, omnipotentemente, sabe que a sua criatura aguentará o abalo da dúvida, estará a torturá-la inutilmente, ideia esta que, por ímpia, não colhe.
Se Ele próprio, o Adorado, tem dúvidas e quer apurar a verdade daquela adoração, então deixar-nos-á a nós em dúvida quanto àquela omnisciência omnipotente.
Se a criatura soçobra, se a sua fé se dilui na escuridão espessa em que não raia a luz divina, até que ponto poderá a criatura assumir em consciência a culpa da sua queda?
E sendo assim, o poder de Deus sofrerá dano, pois até um crente, erguendo-se quase à altura divina, poderá ver-se em condições de O negar. Teríamos então de concluir, com os teólogos medievais, que não existe apenas Deus, também existe e reina um Diabo igualmente poderoso…
Derradeira perplexidade: tentar as almas graças a Deus?!
Bastará isto para demonstrar quanto a alegação teológica a si própria se anula, enredando-se em labirintos sem saída? Restará, ainda e sempre, a saída de emergência escatológica pela porta dos fundos: Deus escreve direito por linhas tortas, quem somos nós para compreender os insondáveis desígnios do Senhor?! Dito isto, os teólogos voltarão a poder dormir a sesta descansados, mas, perguntemos nós, não estarão os católicos a precisar de outras e melhores convicções?
Se tais desígnios são insondáveis, vejamos agora: do que fala quem fala de Deus ou em Seu nome, apareçam como profetas, místicos, visionários ou teólogos?
Recurso extremo: se o mero raciocínio nos conduz a um irremediável agnosticismo, oiçamos os catequistas a bater na racionalidade: para ser boa, a crença tem que se desembaraçar da razão, tornar-se «puro sentimento». Mas poderá haver sentimento humano sem razão? E poderá a razão declarar a sua própria perda sem cair na loucura? Será a crença religiosa, por fim, uma superstição?

1 comentário:

Anónimo disse...
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