quinta-feira, 27 de março de 2008

É difícil verbalizar

Vou extrair a custo, com umas pinças e pelo canto da boca, meia dúzia de palavras escorridas porque não sobra lugar para carpir mágoas de literato. Mas li no derradeiro suplemento de artes e letras que resta na imprensa uma recensão ao meu último livro, o Quase Tudo Nada, feita pelo amigo L. S., e essa leitura deixou-me algo melancólico. A apreciação é ao máximo compreensiva, aguda mas também calorosa e cordial. Tenta abranger os sentidos globais da narrativa e todavia… repete-se em mim, em crescendo, esta sensação de que o principal exposto obra a obra vai ficando omisso e cada vez mais perdido na sombra. Realmente, se quem escreve não encontra umas tantas pessoas que se pronunciem sobre o que o autor lhes dá a ler, não se completa o processo criativo. O caso é este: o circuito perfeito da comunicação requer que a leitura de uma obra tenha na devida conta as obras anteriores do autor e até, porventura, outras obras atinentes do presente ou do passado.
É difícil verbalizar o aspecto em questão desde logo por dois motivos: a) parece rabujice de ingrato vaidosão, que se manifesta insatisfeito porque nada o contenta; b) só por toleima o sujeitinho (eu) pretenderia que um breve artigo de jornal procedesse a tão criteriosa quão extensiva abordagem… Mas é justamente por este lado que se vai acumulando a experiência daquela omissão que põe o autor a sentir que anda a perder-se o essencial da relação que o liga numa obra a outra obra sua anterior, qualquer que seja.
Quando o amigo S. F. me surpreendeu organizando o livrinho que assinalou em 2006 os meus 50 anos de actividade literária, fiquei esperançado. Iria finalmente organizar-se uma visão global do que venho publicando pelo menos desde 1985? É certo, avançou-se um passo em tal direcção mas, a ver bem, ficámos aí pelo primeiro passo. Apalpou-se a casca do fruto sem se ver bem o que estaria lá dentro. As linhas de força não ficaram cerzidas e à vista, a coerência interna do percurso e do corpus não transpareceram em síntese. Digo-o sem ponta de queixa, antes com meridiana limpidez. Porque é bom ter amigos e, ainda melhor, merecê-los.


Enfrentar o peso dos anos quando já se amontoam é algo consabidamente tormentoso para o ser humano. Mas isso, afinal, pouco significa comparado com as transformações do mundo em que me vejo depois de chegar a sénior. Esse o principal problema a emergir na minha vida e para o qual não estava de modo nenhum preparado. Arrogâncias ostensivas de quem quer ter tomates e os sente bem protegidos, desprezos bárbaros pelos Outros «porque são diferentes», o uso da força por cima da lei e da ética, do direito e do pudor em busca de interesses egoístas imediatos, tudo isso transforma o mundo numa selva medieval. Os conflitos estoiram por todos os lados, espalham um ambiente de guerra intimidativa, ameaçadora. Interrogação íntima: hei-de crer que o meu fim chegará, quando chegar, como uma verdadeira libertação - a «libertação» de tanta miséria vulgar?

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