sexta-feira, 28 de março de 2008

Em busca da expressão

Tenho a mão mais afeita a escrever que a boca para falar. Na memória auditiva soa-me cada sílaba das palavras que escrevo, mas sou irremediavelmente, como se vê, de pouca garganta. Levo na escrita os cinquenta anos que o velho companheiro e bom amigo S. F. contou (segundo a praxe, que os enumera a partir da data do primeiro livro), mas algo ficou atrás. O escrever começou pelas garatujas ensaiadas nos palimpsestos semanais das folhinhas provincianas e das primeiras revistas. Porque o escrever é a exteriorização corporizada de uma vivência ou de uma ideia que surge com uma dada forma que todavia pode ser inadequada, imperfeita. É preciso escabichar.
Escrever será, portanto, o acto de trazer de uma certa escuridão interior para uma luz iluminante algo que pode resultar como uma espécie de revelação, mínima que seja – e só quando isto acontece vale a pena escrever ou acreditar que se escreveu. Creio que é esforço perdido o escrito que não contenha alguma cintilação, uma qualquer vibração estreme, por muito que andem a circular e a inundar-nos os textos que trabalham ao invés, tratando de indizer, no que se assemelham tanto uns aos outros que já nos cansa a repetição, o pleonasmo, a cacofonia.
Em momentos eufóricos, tenho ouvido amigos dizerem que escrevo bem, mas sabemos que para se escrever bem se necessita, em primeiro lugar, de se pensar bem. Será que penso bem? Sempre?!
Claro, para se escrever bem é preciso escrever pouco e emendar muito. Emendar sem desfalecimento, em busca da ideia, da expressão autêntica. Deitar fora a parra e aproveitar a uva, incansavelmente, até à tortura. Numa quixotesca luta com as palavras-moinhos de vento, apesar das indiferenças dos sanchos panças. É isso que vale a pena. Acredito que a figura do escritor, qualquer que ele seja ou queira ser, emerge a partir daí. Então o seu papel estará a cumprir-se, ele desentranhou-se fazendo-se parteiro da sua criação. O resto ficará por conta do público – e digo-o na persuasão clara de que os leitores, enquanto leitores, têm afinal algumas obrigações a cumprir em seu próprio proveito… se acaso pretendem fugir às massificações.
Afinal, e sem surpresa, o escritor é pessoa com B. I., donde, aquele será o que esta pessoa for. A obra feita espelha o autor por mais que este se furte e esconda nos enleios da criação. Por seu lado, um leitor deixa-se ler pela obra na medida em que sobre ela se pronuncie apreciativamente. E teremos de convir – autores e leitores – que publicar um texto implica entrar numa partilha estabelecida entre quem o escreve e quem o vai ler. O autor criterioso rejeita malabarismos de fraseados hábeis e sonoros, mas ocos; não tenta pôr em comum senão o melhor de si mesmo pelo respeito natural inerente a quem vive com sinceridade a vida e a arte literária. Esforça-se honestamente por conseguir que cada escrito seu, ainda que breve, seja a gota incendiada capaz de reflectir a totalidade do ser. É isso, esse extracto parturejado, que tem mérito para atingir o espaço público onde, não por acaso, se questiona hoje qual o papel que cabe aos intelectuais desempenhar…

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