segunda-feira, 3 de março de 2008

O povo e o ícone

Emerge Salazar à tona dos dias quando algo remexe nas águas profundas do colectivo nacional. E não admira. Apesar dos anos que levamos de regresso ao sistema democrático, o país aparece restaurado conforme o desenho que dele herdou. Salazar é o ícone fatal que reflecte a matriz do povo português ao ponto de se poder perguntar se não será mais este povo que engendrou aquele ícone e nele se compraz.
Para além das aparências «democráticas» em diluição, vê-se instalado no terreno o essencial do regime da ditadura. A comunicação social toda, sob eficaz domínio, deixa o povo entreter-se com futebol, telenovelas e miúdas invejazinhas; a justiça e as polícias governamentalizadas; os milionários (agora contam quinze mil, quando Salazar morreu, seriam milionárias quantas famílias portuguesas: seis?), enriquecendo aqui dentro e saindo a investir lá fora; a governação atraindo investimentos estrangeiros a todo o preço e adiando uma estrutura económica menos aleatória; os assalariados tolhidos por medos e angústias em crescendo; as populações embaladas em promessas de consumismo sonâmbulo e adiando o despertar… Não era diferente deste o país que Marcelo Caetano, após Salazar, pretendeu. E então, acredita quem tal viu, abundava mais cidadania, mais solidariedade e capacidade participativa; havia quem visse, ouvisse e lesse. Tudo isso desapareceu, foi varrido ou esmagado. Quem tem uma verdade importante, de notório interesse geral, e a proclama em público expondo-se aos zelos alheios, fica ciente de quantas atenções agencia. No meio da praça, em cima de um banco, falará na Travessa do Fala Só.


Uma outra estória, neste caso profundamente embebida na memória popular, conta que o ditador convidou para uma refeição diversos chefes de governo, ministros e líderes estrangeiros. Querendo pôr a reluzir perante as visitas a sua sabedoria de governante, mandou pôr na mesa um único limão, que circulou pelos comensais até que lhe chegou às mãos. Todos os presentes acharam que Salazar não conseguiria espremer melhor o que já estava bem espremido, mas enganaram-se: o ditador apertou ainda mais o limão e, para geral espanto, extraiu do mirrado fruto quanto precisava.
O povo reconta a estória saboreando-lhe a graça. O ditador até dava lições, era mesmo económico!...
Porém, quem a inventou (pois o caso não é rico de verosimilhança) certamente não pretendeu, nem de longe, exprimir tal conclusão. Pretendeu denunciar, não espalhar gracinha. Quis dizer que até de um povo pobre, atrasado e oprimido era possível extrair quanto o ditador quisesse – e, com todas as ajudas dos seus apaniguados, conseguiu-o. A lição, política, ficava à vista. Mas o povo (o limão), mesmo depois de viver em regime democrático, insistiu sempre em não ver, preferindo deixar-se espremer para continuar a saborear a gracinha.

1 comentário:

Anónimo disse...

E continuamos nós, os efectivos contribuintes (com cada vez menos poder de compra e mais obrigações tributárias)a ser os limões para as refeições regaladas e cada vez mais enriquecidas dos actuais capitalistas (sim, dos capitalistas e não dos poíticos que não passam de meras marionetas nas suas mãos!).
Cada vez mais penso no 25 de Abril como um episódio remóto que surgiu na história de Portugal como uma vírgula num texto, no sentido de implementar uma pequena pausa no estado das coisas então vivenciadas. No entanto, ao invés de proporcionar fólego para o desenvolvimento de novas ideias, serviu apenas como um fugaz registo de sonho de liberdade, pois, com o desenrolar dos anos, a história foi-se encaixando nos carris do «mais do mesmo», na forma de uma espécie camuflada de ditadura, mais perigosa e suja, na minha opinião, porque se serve descaradamente da imagem da democracia para camuflar (e muito mal, a verdade seja dita!)as suas linhas de orientação.

Isabel Domingues.