quarta-feira, 12 de março de 2008

Escrever, hoje

Saio da conversa impressionado. Os amigos S. F. e A. A. M. declaram-se indiferentes à situação objectiva em que estão autores literários com «presença» comparável à nossa. Teimam ambos em continuar a escrever e a querer publicar de olhos cegos para uma realidade cada vez mais opaca. Para eles, é como se a situação actual fosse a de há trinta ou quarenta anos com alterações mínimas. Concorrem aos prémios em busca de alternativas editoriais para os seus inéditos e cada vez menos as «novidades» têm alguma réstia de visibilidade, leitores, permanência. Aponto-lhes a minha editora: por carta anunciou-me que ia retirar do mercado e saldar em feira ao desbarato sete obras minhas, todas recentes. Aqueles amigos encolhem os ombros, tornam-se evasivos. Parecem ignorar ou quererem contornar as consequências directas que resultam das mil e tantas novas edições que saem mensalmente neste pobre país, fazendo rebentar os armazéns pelas costuras. Direi: resistem a interiorizar as mudanças do tempo. Continuam, imperturbáveis, vendo tantos, que podiam ler (o verbo de encher?), a escrever com a freima sagrada de quem tem a última palavra em riste e a publicar nas centenas de editoras em actividade…
Atitude desconforme. Tão desrazoável a sinto que me enredo em pensamentos que me trazem cabisbaixo de regresso a casa. Com esta idade, vejo-me envolvido nos langorosos braços de D. Solidão, praticamente sem sentir família, sem alguém a quem deixar a minha obra publicada e a póstuma. Ainda e sempre a escrever, e não apenas estas linhas cruzadas do meu solilóquio. Questão essencial, hoje: escrever o quê? Para quem? Para quantos?
Interrogações minhas. Aqueles amigos não ajudam à resposta (desejavelmente colectiva, para situação colectiva).


Repete-se uma cena ridícula.
- E a menina o que deseja? – pergunta a empregada do balcão, uma fresca rapariga.
Sem dúvida nenhuma, o aspecto da cliente indica uma idade que a habilita a ser folgadamente avó dela. Todavia, a cliente acolhe com naturalidade o tratamento de «menina».
A terceira idade recua assim, envergonhada, perante a afirmação grotesca da «juventude» em moda aos balcões do negócio popular.
Decerto o fenómeno implica e explica um outro, o de rapariguinhas de catorze-dezasseis anos. Ao lado das mães, que parecem suas irmãs mais velhas, disparam-se para a vida adulta com tal pressa que depois, com vinte-trinta anos de idade, já acumularam rodagem que as transforma em «velhas» prematuras.
Anda a «juventude» elevada à categoria de mito que tudo é e nada contém?
Contraste bizarro: andam a proclamar por aí que os rapazes atingem realmente a idade adulta aos quarenta!

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