terça-feira, 25 de março de 2008

Um conto hiperbólico

Estou a desejar escrever um conto hiperbólico para conceber a possível origem do Dom – aquele precioso carisma que põe a brilhar quem o possui e que, a crer nos livros, tem raiz no latim donu-, significando também presente, oferenda feita aos deuses; mas que evoca o dominu, senhor, dono, possuidor, proprietário, chefe, soberano.
Começaria por evocar o aparecimento, lá longe na fundura do tempo, dos primeiros heróis saídos das façanhas nas grandes batalhas vitoriosas que a soldadesca colocava sobre os escudos ensanguentados, dispostos em camada, e levava, elevados e enlevados, em triunfal desfile, coroados de aplausos. Alguns livros de história antiga relacionam a cunhagem das primeiras moedas nas cidades-estados com as efígies dos heróis das respectivas conquistas porque as insígnias dos seus escudos as identificavam. Mas isto não entra no conto; interessa-lhe bem mais a rivalidade que desde cedo se estabelece entre o herói, poderoso senhor da cidade, e o xamã principal. Um reina sobre o terreno, o outro sobre o espiritual, mas as invejas recíprocas põem-nos em confronto.
De facto, o herói feito senhor precisa que o xamã, ou o chefe espiritual, proclame a conquista consumada como alto desígnio obtido pela graça celeste, e tanto isto se repete que o herói vai sendo tido cada vez mais como filho mítico dos deuses. O xamã confirma-lhe mesmo o dom recebido dos céus e, em lugar sagrado, com gestos cerimoniosos e rituais, celebra-o como ungido.
Enlaçadas, estas duas figuras dançam nas páginas da história. Requereram-se uma à outra ao longo dos tempos até se tornarem reciprocamente indispensáveis, porque desde o seu advento, a cidade tratou de dominar o campo, espaço cheio de «pagãos», vocábulo este com etimologia originada no latim paganus = habitantes de aldeias, de campos, significando «idólatras». E quando, mais tarde, surgiu o Império com religião oficial, os «pagãos» continuaram submetidos ao poder maior da cidade.
Será preciso lembrar que o xamã antigo se actualizou numa figura de bispo com cruz no peito cravejada de pedrarias? [Ilustração: escudo dos Reis Católicos]


Acontece vulgarmente: uma pessoa pode dar sem se dar. Dará, porém, tão-só coisa materializada: um beijo, um aperto de mão, um objecto qualquer. Mas assim, dando algo que pode dar sem envolvimento pessoal, dá o que der sem qualquer retorno.
O envolvimento emocional da pessoa que se dá gera uma corrente que se projecta na outra pessoa e que logo regressa, intensificada e duradoira, a quem se deu. A pessoa contemplada surge como uma espécie de espelho da primeira, conforme parece ter entendido o cristianismo (assentando porém no conceito de «esmola» a recompensar numa «outra vida»). Não são, pois, as ingratidões e asperezas do mundo que justificarão o egoísmo, a frieza de carácter. A envolvência emocional permite trocas vitais indispensáveis ao ser humano e quanto mais amplas essas trocas forem, mais vivificado e humano fica o ser. Vivemos uns através dos outros e através dos outros nos expandimos. A dimensão humana atingida pela pessoa concreta assume o tamanho das trocas que a pessoa efectuou.

2 comentários:

Anónimo disse...

Caro Arsénio:
Pérolas estes nacos de prosa, ao fim do dia. Se o dia já foi "bolo", são o acrescento da cereja.
Abraço,
Rui Vaz Pinto

Anónimo disse...

Caro Rui Vaz Pinto:
Um abraço e um agradecimento pela sua leitura regular! É encorajante. Continue a vir até este espaço de encontro (além de outros, todos necessários).
Ars