quarta-feira, 5 de março de 2008

A fuga para nenhures

O caso vivido no comboio misturou-se com o jantar. Não resisti a descrevê-lo a quem comigo estava à mesa e… estarreci ainda mais porque não fiquei sem resposta. Apenas um caso, o mais impressionante.
Os pais de uma menina de quinze anos perceberam certa noite, de regresso a casa de madrugada, que a filha chegava um pouco depois deles. Admiraram-se, pois não lhe conheciam tais hábitos, e quiseram avisá-la.
Então isto são horas? Onde estiveste? Numa festa, com as minhas amigas. Ah, bem, isso é contigo. Porque já sabes, se fizeres alguma coisa de mal, é para ti mesma que o fazes. Sim, eu sei.
Esta conversa foi reproduzida no dia seguinte pelos pais ao amigo que no-la repetia agora mergulhado em estranheza.
- Aqueles pais deixam a menina à solta, nem lhe controlam as saídas nocturnas nem nada, e afirmam-se convencidos de que sabem educá-la e protegê-la tendo apenas o cuidado de lhe dizer e redizer que se fizer mal, será para ela! Formidável, não é?! E o pior é que realmente eles se convencem de que isso basta!
A que ponto se chegou, a fugir para nenhures e sem saber do quê.


Logo ao chegar, a cachopa avisou-me:
- Não te chegues, estou com gripe.
- Lamento.
- Mas já comecei a empaturrar-me com laranjas…
- Porquê?
- Vitamina C!
Uma pausa. Sorri com meia cara, a indagar:
- Mas ainda não consegues crer naquela ideia que te dei um dia, que a doença se declara no corpo onde falta uma determinada substância que existe na natureza?!
- Ora, não acredito nisso!
- Não acreditas nisso e, repara, atiras-te às laranjas em busca da vitamina que julgas boa contra a gripe. E teimas em não encarar o teu corpo como um activo laboratório bioquímico a funcionar em ligação estreita com o sistema da natureza que te oferece laranjas no tempo em que mais te convém comê-las…
…E mais dificuldade terás, julgo eu, em perceber duas simples evidências: que o teu corpo é formado de algum modo por imensos bocadinhos das estrelas que vês no céu e que, sendo a tua casa a Terra, terceiro planeta do Sol, para todos os efeitos o teu lugar é esse todo, o Universo…

1 comentário:

Anónimo disse...

Aproveito para congratular o Arsenio Mota pelos seus artigos, sempre claros, interessantes, informativos e estimulantes.
Obrigado Arsenio.