segunda-feira, 24 de março de 2008

Gravata para qualquer fato

Deparou-se-me A. G. S. há mais de quarenta anos. Empregado na secretaria do Hospital de Santo António, onde os reporteres dos jornais iam em busca de elementos para notícias de mortos e feridos para as pequenas notícias «chapa cinco» (o regime da ditadura filtrava as outras novidades). Rapaz sempre bem disposto, sempre pronto para acamaradar e nessa altura a iniciar-se como colaborador desportivo no meu jornal.
Ninguém lhe conhecia estudos, bagagem cultural, alguma experiência jornalística, mas ele, sempre prazenteiro, cuidando de sorrir e pouco falar, em breve iludia a lacuna e entrava para a redacção. No jornalismo nunca escreveu nada afora pequeninas «chapa cinco» (na gíria profissional) nem se distinguiu sequer numa conversa de teor assinalado. Tão-pouco se pronunciou alguma vez em termos de orientação político-partidária e todavia «parecia socialista» pois na sua roda abundavam pessoas da mesma cor partidária. Até arranjou maneira de chefiar durante anos uma delegação de jornal capitalino conotado com grupo dessa tendência. Conhecia e conheciam-no «todos» os jornalistas e etc., era simplesmente um tipo porreiro. Ia a todas, não faltava a nenhuma. Cabia bem em qualquer grupo, era gravata que combinava com qualquer fato.
Um dia A. G. S. sentiu acordar nele um interesse cultural específico na forma simples de uma curiosidade. E foi assim: um alfarrabista seleccionou e vendeu-lhe pouco a pouco montes de velhas publicações tripeiras a preços de saldo, foi adubando o negócio charlando com o que sabia da história local – «é preciso saber vender, criemos um cliente» - e estabeleceu-se entre ambos uma relação amistosa. Tornou-se vital para A. G. S. porque o alfarrabista se encarregou de lhe alimentar o gosto pela recolha das memórias do burgo já impressas.
Entretanto os livros, revistas e jornais adquiridos iam formando monte, o monte parecia biblioteca, foi necessário instalá-la em casa própria e, para justificar a aquisição das publicações, como não saberia pronunciar-se sobre mais nada, A. G. S. tratou de reaproveitar o que uns autores mais ou menos esquecidos haviam deixado escrito, misturando-o com um pouco das suas pessoais recordações. Começou a assinar textos no jornal e quem o conhecia admirou-se: tardou, tardou, mas por fim o rapaz saía da casca.
Outras pessoas, por vezes de formação escolar e vocação francamente modestas, também escrevem nos jornais, dando-nos motivo de espanto se acaso lhe tivermos conhecido a expressão escrita original. Fraquezas ortográficas, sintácticas ou estilísticas surgem tratadas pela revisão dos jornais. A pessoa acaba por ficar com uma quantidade de textos revistos, depois ganha fôlego e com eles organiza um livro. Tem acontecido. E agora, integrados na «geração grisalha», o ciclo repete-se, a um livro segue-se outro livro…
Voltando ao ponto: A. G. S. acabou por se ver declarado «erudito», «investigador» em jornais ditos de referência (os seus amigos espalham-se por todo o lado), não tardou mesmo a surgir na televisão e a ter nome sonante como glória da urbe. Espero que não morra sem estátua e avenida evocativas. A parte baixa da cidade merece-o.

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