sexta-feira, 21 de março de 2008

Inconformados com a História

O pintor G. C., desaparecido em 1994, não deixou apenas obras, também deixou recordações. Tinha uma personalidade peculiar que se exibia tão pouco quanto o esquivo cágado que afirmava ter no jardim da moradia e que nunca cheguei a ver. A simpatia e a convivência, ou a maré azada, desataram porém, da boca peculiar, o que antes retinha sob reserva.
Foi ao deambularmos numa conversa ociosa que o artista deixou sair, como um desabafo, a sentença: todos os males do mundo vinham das consequências da Revolução Francesa! Antepus-lhe breve dúvida e G. C. reafirmou: na sua opinião, a Europa, pelo menos, perdera-se com a lamentável revolução de 1789…
Apurei então o olhar. Aquele homem, já idoso e em perpétua solteirice, vivera em França uma porção de anos e por lá deixara uma filha. As suas obras – tapeçarias, frescos, óleos – espalharam-se por castelos, palácios e ricas mansões, onde continuaram a habitar as dinastias de quem, até pelos laços de sangue, chorava o triste fim de Maria Antonieta e do ancien régime na guilhotina; essas obras não alcançaram (ou não procuraram?) as casas da burguesia outrora revolucionária que, apesar dos ascensos democráticos, no século XX pouco apreciava ainda os requintamentos da arte e da cultura…
Aquele homem manifestava portanto uma discrepância radical com o seu tempo. Recusava-o. Gostaria de viver entre clero, nobreza e povo, recebendo encomendas dos dignitários para ostentar nos seus salões e almejando privilégios feudais. Este seu e nosso tempo seria para ele uma piolheira.
Há quem viva um tanto no passado - que estranho! É certo que isso ocorre, por motivos estéticos, por exemplo com Sophia, cuja obra literária invoca bastante a cultura da Grécia clássica. Mas os motivos de G. C. não eram estéticos, eram flagrantemente ideológicos. E então veio-me à lembrança esta informação remota: que os cursos de História da Universidade portuguesa durante a ditadura salazarista se enchiam de Cartago e Peloponeso, Alexandre e Carlos Magno, o Renascimento, etc., parando às portas da Revolução Francesa porque… aí entrava-se na Era Moderna e então, cuidadinho!...
Afundei-me em perplexidades e estranhezas. Podia compreender G. C. na medida em que de facto o incompreendia. Morreu atropelado na rua, estupidamente. Ficou para mim associado a uma outra figura bizarra que encontrei na Itália. O director de museu próximo de Carrara (Ligúria), franzino e nervoso, escandalizou-se ao perceber que um português, também colonizado (sic) pelo Império Romano, não repelia o latim, presente no substrato da nossa língua nacional. De facto, o homenzinho enfureceu-se e, enfurecido, até nos virou as costas!
Quantas pessoas ficam assim presas e paradas num certo ponto das margens do rio da história do mundo e a discuti-la sonhando com uma desforra?

Sem comentários: