domingo, 2 de março de 2008

Massificação em curso

A massificação de populações inteiras resulta de uma forma de opressão, de uma tirania exercida que se revela mais violenta quando chega ao ponto de passar despercebida como se fosse «natural». Mas sê-lo-á a força que modeliza a infinita variedade humana num padrão único – consumista, egotista, hedonista-sem-eden? Que trabalha principalmente para instalar cada pessoa em ilhotas de solidão, no meio de distracções em torrente contínua, em atitudes de passividade «virtuosa», em alienação das realidades do mundo?
E populações deixam-se massificar, aderem ao rebanho humano adoptando comportamentos apenas porque lhes são apresentados como «da massa» ainda que sejam novos e minoritários. Pessoa bem massificada não é anti-social… O direito à diferença, sim, é visto com desconfiança, como um desvio culposo da norma.
Mas o fenómeno reveste-se de contrastes curiosos. Quanto mais os indivíduos se descaracterizam, dissolvendo-se de olhos abertos na massa anónima, mais se multiplicam os sinais incorporados de pretensa individualização: tatuagens, brincos, cabelos compridos, penteados insólitos, roupas bizarras, comportamentos singularizantes. Esta tendência avulta maiormente na procura quase frenética de «identidade» - da própria pessoa, da sua linguagem (cada vez mais empobrecida e estereotipada), ou de uma comunidade, país, cultura… Assim tão rara, a «identidade» tornou-se um bem precioso na medida em que nos falta.


Os modelos da linguagem geral entraram também no fenómeno da massificação. Sem pertenças, os indivíduos acabam integrados na massa para com ela se identificarem. Se anda no ar uma qualquer inovação linguística, acatam-na, ainda que a saibam errónea, decerto para se sentirem confortavelmente integrados na massa. Desvios da norma como, por exemplo, expressões «há uns dias atrás», evidente pleonasmo, ou «à última da hora», entre outras, instalam-se, passando do plano oral para o escrito, de mistura com recursos viciosos a vocábulos polissémicos e outras bengalas da expressão – tais como repetir «matéria» ignorando variantes possíveis: assunto, questão, tema, problema, etc. - que reduzem e empobrecem cada vez mais o vocabulário em uso. E acontece o cúmulo: a revisão de uma editora para a qual eu fizera a tradução de um romance com elementos históricos de Génova do século XIII teimou comigo em «traduzir a tradução» querendo simplificar muita terminologia, que aliás desconhecia, como se fosse possível evocar um ambiente medieval sem usar vocabulário da época…
Acresce a veloz implantação de barbarismos ingleses perfeitamente dispensáveis. Por este caminho, a nossa língua materna tornar-se-á irreconhecível no breve espaço de duas gerações. E no Brasil permanecerá conservado o remanescente da herança maior da cultura portuguesa.
(Ilustração: desenho de Paula Rego)

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