terça-feira, 4 de março de 2008

O que fica para os «outros»

Sentei-me no comboio num daqueles lugares duplos fronteiro a outro igual. Foi ocupado por rapaz de uns trinta anos e sua menina de uns quatro, que ficou à janela. Ele operário, ela filha, supus, e não me enganei. Tarde agradável, não iria permitir-me pegar no livro, cochilar. A menina, muito viva e realmente encantadora, pedia atenção que o pai lhe reduzia ao mínimo. Dir-se-ia que preferia alhear-se da garota, calar-se e descansar. Bastara comprar-lhe um entretém. Dava a ideia de que levava consigo não uma filha, sim um vulgar embrulho recebido num sítio e a entregar noutro. Divorciado, tornei a supor; a ex-mulher confiou-lhe o rebento pelo período da regra e ele vai agora descarregá-lo no regaço da sua própria mãe para seguir com a vida. Por aqui se percebia a nula intimidade existente entre os dois.
A menina distraiu-se enquanto pôde com o seu brinquedo, depois virou-se para a vizinhança acessível, eu. E pouco a pouco, tagarelando, foi fazendo amizade comigo. O pai sorria satisfeito por alguém, com aspecto de avô, atender a sua miúda, que repetia agora recomendações ouvidas à mãe entre gestos e expressões que a insinuavam. Naturalmente ela teria emprego, deixaria a menina em casa entregue à avó materna. Afigurou-se-me então que tinha ali diante dos olhos um exemplo de quanto investimento, não apenas afectivo, falta a algumas relações entre pais e filhos. De quanta solidão ou de quanta indiferença gelada se instalou no interior dos espaços domésticos!
A nossa conversa ia animada quando o lugar vago à minha esquerda foi ocupado por rapariga, estudante a crer na sua leitura. Entretanto, eu ia explicando em brincadeira o que víamos desfilar pela janela: oliveiras, pinheiros, laranjeiras, ovelhas, cavalos, bois, etc., com a respectiva contagem, passámos para jogos com dedos e mãos… Tanta novidade para a mente infantil! Tanto espaço em branco para povoar!
Depois a rapariga entrou no diálogo, disse que ia ao Porto inscrever-se na Faculdade, o rapaz espevitou-se, mostrou presença e simpatia, e acabou por trocar com ela números de telefone antes de sairem os três em Vila Nova de Gaia…
As horas de viagem tinham deixado de ser vazias, uma sensaboria, para aquela criança esfomeada do que lhe mingua - atenção. É bem verdade, não poderemos saciá-la dando-lhe um chocolate no dia de anos e outro pelo Natal quando a necessidade é permanente.


Recolho em dia posterior a notícia que corre. Os pais portugueses são os que na Europa comunitária menos brincam com os seus filhos: apenas seis por cento. Uma pessoa fica estarrecida mas não admirada. Confundem-se a falta de tempo, a falta de hábito e a falta de gosto para que os papás estejam com a família. Decerto perderam-lhe o jeito. Isso vai ficando entregue aos «outros», às amas, educadoras de infância, professoras…
Que espécie de gente está assim a ser criada?

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