sexta-feira, 7 de março de 2008

Prendas da vizinhança

Um vizinho que tive fez-se notar pela vulgaridade. Baixote e gordinho, de avançada maturidade, pele fina e nédia como a de um paxá do nosso imaginário, mas casado com umas amplas saias e de cabelo na venta, passava o tempo sentado. Estranhava vendo-me subir os degraus da escada porque ele não prescindia do elevador. Objectava-lhe: conservamos no corpo o que usamos, perdemos o resto. Creio que nunca me entendeu, pois a mulher continuou a queixar-se. Acusava-o de ir de carro até algures e, lá chegado, tornava a sentar-se, a vê-la mexer. Por fim, o homem morreu já sem sair do passo curto cama-sofá.
Enriquecido após a falência de empresas que administrara, o homem até viajara um pouco noutro tempo: tinha ido à Galiza e a Paris, dormira uma ou duas noites nesta capital, fora ao Moulin Rouge (naturalmente na companhia de quem falava francês), fora com mulher para o quarto… Enfim, grandes aventuras! Peripécias dignas de ser contadas!
Acabou por me declarar o que pretendia. Dispunha-se a contar a sua vida ao «jornalista» para que escrevesse um livro. Um romance!
Sorri abertamente; bastava conhecer a mentalidade do sujeito para contar com a prenda. Comecei:
- Imagina você que está a propor-me um trabalho para quanto tempo? Doze meses? É pouco, mas façamos as coisas por metade, seis meses. Ora um trabalho desses, digamos especializado, seria pago por quanto? Pelo vencimento mensal do redactor de jornal? Multiplique-o então por seis. A soma enche-lhe o olho, estou a ver na sua cara, mas falta agora o custo da produção do livro na gráfica, multiplique essa soma por três…
- Isso não! – explodiu o homem.
- Calma, ainda não é tudo. Acrescente o seguinte: alguém iria comprar o seu livro? Quem iria lê-lo, ainda que o recebesse oferecido?
- Mas eu estive em Paris, fui ao Folie Bergers, ao Moulin Rouge…
- Acredito. Milhões de pessoas, todos os anos, passam por lá largando a notas festivas que fazem andar o moinho, você foi mais um. E, enfim, porque teríamos nós todos de pensar que as miúdas peripécias da sua vida eram mais interessantes do que as que cada um de nós viveu, lá ou algures?
Estraguei-lhe a fantasia mas reconquistei o sossego.


Esta tarde cruzei-me no passeio com uma orgulhosa mamã. De olhos em alvo, vinha ao meu encontro impelindo o carrinho pelo passeio estreito e fez toda a questão em calcar com as rodas o meu sapato. Reclamação (muda) da senhora: ali ia o seu bebé, atenção! Devia ter-lhe deixado aberto o caminho, saltar para a via!
Decerto numa atitude afim, vêem-se automóveis com autocolantes a advertir o mundo: «Bebé a bordo. Cuidado!»
Atenção e cuidado exigidos aos outros? Para os seus rebentos?

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