sexta-feira, 14 de março de 2008

Querer e conseguir

G. impôs-se como pintor através de longa luta. Poderia até dizer-se que na luta se modelou a sua longa vida. E tão constante e difícil foi esta que acabou a marcá-lo pela singularidade.
O principal problema de saúde que atormentou G. durante imensos anos esteve na visão. Recorreu a sucessivos transplantes de córnea para adiar a cegueira, a princípio parcial mas grave e depois total. Ora um pintor privado de ver, o que pode fazer? Porém, o que o pintor sabia fazer era pintar. Resistiu numa pintura algo gestualista na última fase e depois, mergulhado na cegueira, seguiu em frente. Familiares dispunham as tintas em pontos certos do cavalete e ele, tacteando, escolhia os pincéis e espalhava-as na tela. Pintava «de memória» quadros por vezes algo perturbantes, surpreendentes. E assim continuou a resistir.
Tanto se empenhou que conseguiu interessar o Centro Cultural de Belém no projecto de uma exposição. Mas os contactos postais entre Porto e Lisboa não respondiam a todas as dúvidas e G. teve de ir lá para uma reunião. Foi acompanhado, é claro, por familiar. Quando os responsáveis do C.C.B. souberam que o pintor chegara para a reunião e que era cego, estupefactos, gaguejando, mandaram dizer que não podiam recebê-lo. Regressou G. revoltado e contou aos amigos a peripécia na figura de vítima de mais uma discriminação escandalosa. E os amigos, compadecidos, nem lhe perguntaram se alguma vez um pintor cego em actividade conseguiu fazer-se aceitar.


Certamente como qualquer outra pessoa, E. R. tem as suas peculiaridades. Há talvez vinte anos afirmava, com tocante convicção, «eu quero!» Exprimia uma aspiração ao máximo sucesso e queria obtê-lo, não depois de morto, antes em vida e bem depressa. Declarava o seu pleníssimo direito. Mas repetia-mo com um sorriso meio escondido (curioso: achava que, pelo seu inverso, ou seja, feito tolo, não quereria outro tanto para mim), enquanto eu pensava, ouvindo-o, que quem tal queria era ele, a sós, decerto na companhia de mais alguém fixe… e ponto final. Era pouquíssimo. Sobretudo depois de concordar comigo numa geral «crise de atenção».
Nos últimos tempos, o amigo E. R. deixou de proclamar o objectivo que erguia como bandeira. Terá desistido da ideia de que bastava querer para conseguir? De qualquer modo, entristeceu. Desistiu mesmo de falar dele próprio na terceira pessoa do singular, como de um outro. Mantém o comportamento retraído e o gosto de se publicar acho que para alimentar uma vigorosa fé no futuro. Acredita na justiça do tempo, diria eu, como um náufrago. Entretanto, a mim, encontra-me vestido com nenhuma esperança. Lavo os olhos na água matinal e vejo-me no espelho; olho pela janela e estou neste mundo…
São demasiado altos os preços da portagem para entrar na ponte e atingir o outro lado. Ouso discuti-los como quem se descarta das derradeiras ilusões – as ilusões que são o combustível da vida, mas que a nível vulgar se confundem com efémeras exibições na feira de vaidades.

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