segunda-feira, 10 de março de 2008

Roupas da moda, uniformes

As vestes, que marcaram em tempos as categorizações sociais e até as profissões dos indivíduos, ainda hoje são o sinal mais óbvio das aparências, embora apareçam uns indivíduos enganadores, desprovidos das «marcas» em voga, que podem passar por pobres calças rotas sem-abrigo (pois até falam desbragadamente) e vai-se a ver, são filhos de papás abastados. Mas a evolução geral dos costumes tem vindo a uniformizar os vestuários de tal maneira que os «modelos» básicos em uso se expandem, rápidos, pelo Ocidente, pelo Oriente, pela África, demonstrando a globalização da moda.
Que nem sempre foi assim, sabemo-lo e confirmamo-lo de olhos postos em imagens antigas, retratos de famílias realengas, aristocráticas ou endinheiradas, entre eminências diversas. Bispos e arcebispos acompanham bastante bem a regra. Ora a observar tais imagens é que estamos a submergir-nos em puro espanto, pois notamos que nos vetustos tempos dos retratados eles se cobriam, com uma porfia maníaca, de espessas camadas de roupas. Esvaziavam um armário inteiro em cima do lombo com ajuda de criadagem!
As damas não lhes ficavam atrás. Alombavam também com camadas de roupas que começavam em cima da pele e terminavam, quando tinham de terminar, nos tecidos expostos. O conjunto constituía para as mulheres uma verdadeira blindagem (daí, talvez, as notícias de tão poucas violações?), pelo que também lhes acudiam as criadas para vestir, pentear e despir.
Ponto importante era o do preço pago por aquelas roupas todas.
Fidalgos houve, a crer no que dizem as crónicas, que se arruinaram na compra de sedas, brocados, veludos e escumilhas! E de chapéus à moda sabe-se que houve sempre fartura.
Contraste: quando aqueles luxos raros custavam fortunas, não faltou quem os usasse em prova de ostentação ainda que nos ombros lhes pesassem uma arroba; agora, quando os tecidos têm preços menos inacessíveis porque a confecção industrial os «democratizou», o vestuário aligeirou-se, reduziu-se ao mínimo dos mínimos. Terá isso a ver com o aquecimento global e o arboricídio selvagem?!


Tarde de sol fagueiro abrindo uma Primavera temporã. Último dia da exposição de pintura com apresentação de livro que reproduz os desenhos expostos. O pintor E. R. emociona-se ao agradecer por fim. Evoca o seu «sonho de menino», pintar. A assistência aplaude calorosamente, percebendo a piedade que exprimia por si próprio e o seu apelo implícito para que nós outros estivéssemos com ele na realização do sonho. Apelo inútil, patético. O pintor parecia ter esquecido que todo o ser humano alberga pelo menos um sonho morto-vivo e que o seu apelo o tornava presente no foro íntimo de cada um dos ouvintes.

Sem comentários: