quarta-feira, 19 de março de 2008

Sem réstia de reforma

Oiço amigos meus dos mais estimados queixarem-se de circunstâncias familiares que os impedem de viver a reforma como a desejaram e fico chocado. As circunstâncias pessoais reduzem-se a uma única: têm filhos e filhas, que criaram, agora têm netos e netas, que tratam como seus novos filhos; e se filhos ou filhas no celibato, a caminhar pelos trinta adiante, não lhes saem de casa, mantém-se no essencial a situação.
Aqueles amigos sentem-se acorrentados por um enleio emocional que não repelem porque, conforme explicam, gostam de quem puseram no mundo e de cuidar da família enquanto podem. Mas passam os dias em corridas, sem tempo para si próprios, sem um naco para estar num convívio apetecido. São pais permanentemente disponíveis para acudir a tudo e mais alguma coisa, netos de e para a escola, maleitas súbitas, carências de dinheiro, bricolagens de emergência. E repete-se uma exclamação pungida: como há-de ser depois de desaparecermos?
Cansados, atentos a qualquer toque do telemóvel, abalando a seguir em miúdos alarmes, deixam-me nos ouvidos um desespero larvar a lavrar. Como se explica tanto peso, tanta exigência, dos filhos sobre os pais, que estes meus amigos exprimem e suportam, estando reformados há anos mas sem réstia de reforma, quando as estruturas familiares em geral se desmoronam?
Não sei explicar, apenas concluir que o papel dos progenitores aparece hoje, por aqui, com duração tão prolongada quanto a sua existência…


Conheci M. C., natural das Gafanhas, em 1955, em Caracas, onde fizemos amizade e até compartilhámos um quarto arranjado na moradia de uma viúva. Era rapaz simples, trabalhador, aplicado, muito católico. Reencontrámo-nos mais tarde, cá pelo rectângulo, quando casou em Santo Tirso. Anos decorridos, soube que era construtor civil em Aveiro, enquanto eu ia jornaleando, publicando livros, isto é, enquanto o amigo M. C. ia acumulando mais e mais riqueza e eu acumulava letras, algum conhecimento. Há dias telefonei-lhe a indagar se continuava na caça aos euros. De facto, já se perdia da memória um nosso almoço em Aveiro e a promessa de M. C. nos tornarmos em breve a encontrar…
Esta nossa conversa telefónica foi marcante. Percebi que o meu amigo M. C., creio que promovido à categoria de milionário, andava agora a mostrar-se reticente nos contactos comigo. Enfim, deu-me a impressão de que me imaginava um «poeta», certamente infeliz, crivado de dívidas, noctívago e olheirento, de cabeleira desgrenhada (que gracinha!). Protegia-se porventura de eventuais pedinchices e lamúrias (o almoço, para o qual o convidara, teria sido um isco)…
A minha percepção baseia-se meramente no alívio, no vivo contentamento por ele manifestado ao saber que dispunha do suficiente para pagar os meus derradeiros anos de existência numa residência sénior por acaso nada baratinha.

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