segunda-feira, 31 de março de 2008

Somos testemunhas!

Nesta final-idade em que me vejo, volto-me para o passado sem o castigo da mulher de Loth, porque é na actualidade do mundo que me transformo em estátua de assombro imóvel.
Vê-se a população ensimesmada, atomizada em solidões irredutíveis, massificada em estereótipos pimba, banida da informação decisiva para o exercício da cidadania, distraída com jogatinas e espectáculos a rodos entre corridas estéreis.
Habituando-se mais e mais a uma passividade bovina, ao conformismo incómodo, à derrogação sistemática. Anestesiada por corrupções em denúncia contínua, banalizante, escamoteadora. Caminhando aos magotes pelos labirintos dos grandes centros comerciais, a consumir com os olhos ou a crédito. Instalando-se na submissão pela prática do juízo suspenso (que aconselha a calar a opinião própria excepto quando se trate da defesa do próprio interesse, altura em que o indivíduo, estremunhando, estará sozinho perante o flagelo), até ficar sem opinião.
Primeiro a população não sabia o que lhe escondiam, depois foi deixando de querer saber. A parte viva que existia latente no seu íntimo, onde apreendia o sentido humano, isto é, o senso moral, embotou-se, deixou de reagir, e a capacidade pessoal de indignação ficou tida não apenas como inesperada, também como inconveniente.
De mistura com as mentiras e meias verdades em diária circulação, multiplicam-se os casos de escravatura económica e sexual, enriquecimentos súbitos inexplicáveis, raptos, torturas, violações impunes das leis, feitiçarias e outras crendices medievais, canibalismo… São estas as pedras, de formas diversas, que recobrem os pedregais do nosso caminho. A capacidade de espanto cede o lugar ao embrutecimento dos sentidos.
A informação agiliza-se como propaganda sem véu, a manipulação das consciências expande-se com golpes de crescente audácia. A publicidade requinta expedientes dos mais grossos aos subliminares porque, agora sim, é proibido proibir. Estimula-se a desmemória.
Estados «exemplares» (pois outros lhes seguem o exemplo), que se afirmam na vanguarda da defesa dos direitos humanos e da democracia avançada, avançam na liquidação acelerada dos serviços públicos em benefício de oligarquias financeiras, debilitam a segurança social e promovem o desemprego, enquanto agravam os impostos da maioria, esmagam as classes médias, aumentam as despesas militares, ordenam discricionariamente. Alegam que pretendem minorar as despesas da administração mas sobra-lhes dinheiro e sangue para gastar em guerras alheias.
Do tempo de crise passou-se para o tempo da decadência, extinguiu-se uma vigorosa opinião pública, e chegámos a isto. Não há mais lugar para o patriotismo (que anda confundido com nacionalismo - porque rima com ismo?), cuidado, recomendam os orfeónicos comentadores de serviço. Manifestar sentimentos, num mero assomo de humanidade, já surpreende. Eis o processo das mudanças em curso. Vamos pedir mais mudanças? Está visto, avançamos, afoitos, para o paraíso!

2 comentários:

Ferroada disse...

Caro Arsénio

Ainda há resistentes.
Que se vão expressando no gargalo que a rolha tenta tapar. será que estamos voltar à "lei da rolha" ou será desgaste, que leva à desmemoria. porque não há reacção a tanta "ação" de acordo com as leis da ciência deveria haver?

Um abraço Arsénio você é a prova de que ainda há resistentes e testemunhas.
Carlos Rebola

Anónimo disse...

Obrigado pela cordialidade e o incentivo, caro Carlos Rebola! Dá força e razão ao ditado «amigo do meu amigo, meu amigo é», com lembrança especial para o nosso prezado Manel. Agradeço a sua e vossa passagem por aqui. Oxalá volte sempre.
Abraço,
Ars