quinta-feira, 20 de março de 2008

Sonoridades inaudíveis

A meio da tarde fiquei à beira do jardim da Cordoaria, dentro do carro, esperando quem tardava. Então, de surpresa, fizeram-se ouvir carrilhões na torre dos Clérigos. Um concerto! Alguém, um raro carrilhonista, estaria a dar socos e pontapés nos comandos para fazer repicar os sinos.
Maravilha!
Quando a pessoa amiga deixou de se fazer esperar, disse-lhe:
– Ainda bem que tardaste. Corri os vidros e pude apreciar um esplêndido concerto nos carrilhões ali dos Clérigos.
Incredulidade:
– Concerto? Nos Clérigos? Não acredito. Parece que a torre até já se esqueceu que tem carrilhões!
Ri-me com vontade:
– Bom, também eu não sabia de concertos nenhuns, mas agora, depois de ouvir este, hei-de ouvir mais. Certamente são periódicos, vou averiguar…
Averiguando, explorei a roda das relações pessoais. Colhi o mesmo espanto e a mesma incredulidade. Neste ponto, pensei: por que diacho pessoas que tão bem julgam conhecer-me resistem assim, forte e feio, a crer no que digo tendo-me embora na conta de sério?!
E como é possível que tão inaudíveis sejam os brônzeos sinos da torre tripeira a bimbalhar?!
Tenho agora, na colecção de discos, um com o som dos carrilhões dos Clérigos. Felizmente. Pelo sim, pelo não. Como fará reagir os incréus?


Notícia para alegrar o dia cinzentão: um cientista do rectângulo ibérico afirma que a inteligência dos portugueses está a aumentar. Neste caso, porém, quem anuncia a boa nova é quem pretende pô-la a render, pois o cientista se apresenta como autor de recursos já criados, óptimos para expandir ou melhorar as capacidades mentais. Não por acaso, até quer ir mais longe, o que significa que projecta expandir o negócio.
Possivelmente, terá alguma razão. A inteligência, em certos indivíduos bem escrutinados, tem o poder da luz amplificada e estimulada, mas deixa-nos a perguntar: para que deve servir mesmo a inteligência? O raio da luz laser age como instrumento de cirurgias curativas ou como raio de morte?
Entretanto, para que alguns escolhidos fulgurem como sóis em noite escura, camadas e mais camadas de gente arrebanhada mergulhará na idiotia ou na imbecilidade. Não saberá ler = entender uma página ou fazer
de lápis na mão uma conta de somar. Para isso caminhamos.

2 comentários:

jorgeguerra disse...

Caro Ars. Mota, volta e meia visito-o, de cada vez a dar-me conta de que leio sempre mais. Eu não sou escritor mas ando por aqui a exercitar. Conheci este lugar no http://blog-do-manel.blogspot.com, mas já tinha lido o seu "Estudos Regionais Sobre a Bairrada", adquirido junto do responsável do Museu S. Pedro da Palhaça, de onde retive aquela observação irónica do turismo da Curia ter sido ideia de "meia dúzia de malucos gizarem um mundo de fantasia". Boa escrita e obrigado!

Anónimo disse...

Caro amigo Jorge Guerra:
Agradeço a simpatia. Não tenho o gosto de o conhecer, imagino que vive por Cantanhede ou algures na Bairrada. Se quiser indicar-me o seu e-mail, entrarei em contacto directo consigo. Retenho: «Não sou escritor mas ando por aqui a exercitar.» Logo, interessa-se pelo que me interessa...
Cordialmente,
Ars