terça-feira, 18 de março de 2008

Surpresas do quotidiano

Estou para saber o que concluir de uma conversa tida com um médico que conheço e estimo, E. L. C. É da minha idade, portanto está aposentado há tempo, mas continua activo na policlínica, onde o encontro, após os anos de serviço no Hospital Militar. Conversa comigo com óbvio gosto. Um dia perguntei-lhe:
- Vê-me sem problemas de saúde mas, se estivesse, por uma qualquer doença escondida, condenado a desaparecer digamos em três meses, avisava-me?
- Ora, não, de modo nenhum! – respondeu ele, terminante.
- Seria a suprema traição! – avisei.
Manteve-se firme, inquebrantável. No máximo, avisaria alguém da família, nunca o pobre da vida por um fio.
Vou raramente à policlínica e deixámos há tempo de nos reunir para um jantar convivencial. Na conversa de hoje tornei ao assunto, admitindo que ele poderia ter revisto tão redonda opinião. Encontrei-a inalterada. Lembrei a «traição suprema», o «direito à verdade», a interdição em que ficava o doente de arrumar como entendesse os seus assuntos.
Pensei mesmo que o médico estava ali a colocar-se à altura do deus que tudo sabe e foge a intervir. Colhi dele, médico-deus, uma única justificação: certo dia um paciente insistiu para que o médico lhe dissesse a verdade; a esperança de vida, curta, foi-lhe revelada e o homem correu a lançar-se da ponte para o rio…
Não consegui apurar se o caso envolveu um doente do E. L. C., embora suspeite que não (tratar-se-á decerto de uma história que circula entre os defensores do sigilo) e tão-pouco pude confirmar se terá a ver com algum preceito deontológico. Duvido.
Acresce que aquela piedosa alma católica teimou comigo e permaneceu inabalável também num outro ponto. Avisou-me: eu, que tive pais com autênticas «mortes santas», vendo-me condenado à morte iminente, modificar-me-ia. Sofreria uma transformação - «como toda a gente», sublinhou. Entendi: a figura da morte iguala-nos a todos, desaparecem os corajosos e mais ainda os heróis… Desisti de o convencer, só morrendo! E nem lhe falei que iria ser cremado…


Vi entrar J. I. no autocarro em que seguia. O pintor e marchand avançou pelo corredor na minha direcção e eu, que deixara de o ver, saudei-o com satisfação, notando-lhe o envelhecimento. Mas J. I., embaraçado, obrigou-se a convencer-me de que não costumava andar em transportes públicos, que só ia ali adiante para não sei quê, entrara porque… E parecia realmente muito contrariado, mesmo humilhado pelo nosso encontro dentro do transporte colectivo, embora eu lhe lembrasse que também ia nele, que era solução a mais prática… Inútil. Agitado, aquele amigo escapuliu-se porta fora logo a seguir!
Se o que ele sentiu era vergonha, essa vergonha de repente passou para mim, invadiu-me.

1 comentário:

Anónimo disse...

Este sistema é tão irracional que até um pintor chega a esse cúmulo!
Depois é o caos do trânsito, a poluição, o custo do transporte...
Total inversão de valores...
Abraço,
Rui Vaz Pinto